Por um 2017 sem omissão

Eu queria sentar aqui hoje pra conversar com você sobre as nossas metas para o ano que vem. Queria falar um pouco sobre como pode ser transformador você aprender a se amar e se colocar como prioridade no ano que chega. Que as metas são importantes, sim, mas não podem ser um martírio que você precisa levar nas costas o ano inteiro, porque no fim de 2017 você será uma pessoa completamente diferente do que é hoje e tudo bem algumas delas não fazerem mais sentido. Queria até relembrar várias coisas do ano que passou.

Mas a real é que apesar de 2016 ter sido um ótimo ano para alguns e péssimo para muitos, nessa altura do campeonato isso não importa muito. Depois de tantas notícias trágicas o ano inteiro e a coroação dessa tragédia com o assassinato de Luiz Carlos Ruas, o Índio, no dia de Natal, a verdade é que eu não tenho estômago para vir aqui cheia de mensagens positivas, mostrando como a nossa vida foi boa nesses meses. Não interessa muito se o resultado de 2016, direcionado a sua vida, foi positivo ou negativo. Pra mim, com essa quantidade de acontecimentos de embrulhar o estômago que vieram como uma chuva de merda nos últimos 365 dias, parece que 2016 foi um ano em que falhamos completamente como humanidade. Isso é desesperador.

Essa sensação me deixa com medo, de verdade, pelas coisas que estão por vir. Pelo ano inteirinho que temos pela frente. Dá aquele pânico pensar para onde o mundo está caminhando e como nós, individualmente, parecemos não dar a mínima. Porque estamos ocupados demais com nossos próprios problemas. Porque vemos injustiças acontecendo e não fazemos nada. Porque lavamos nossas mãos para discursos de ódio, ignoramos que o que consumimos tem impacto direto na vida de outros e apagamos do nosso vocabulário a palavra empatia.

A única coisa que eu gostaria mesmo é que em 2017 a gente faça mais a nossa parte como seres humanos. Cuide da nossa comunidade. Valorize as pessoas a nossa volta. Abra a boca em situações de injustiça. Se importe mais. Respeite os outros do fundo do nosso coração e lute para que outras pessoas também respeitem você, eu e todos nós, sem distinção. Que em 2017 possamos enxergar que lavar as mãos para o sofrimento dos outros é uma das formas mais rápidas de destruição de uma sociedade. E que depende de mim, de você, de cada um de nós fazermos a nossa parte e brigarmos pelo que está errado, mesmo que isso não diga respeito especificamente aos seus problemas.

Os lugares mais negros do inferno são reservados para aqueles que mantêm sua neutralidade em tempos de crise moral – e esse ano foi só um preview do que acontece quando somos omissos.

Deixando a retrospectiva só para o nosso Instagram, eu quero muito que 2017 seja mais leve em tantos aspectos que não consigo enumerar.

Que possamos voltar a enxergar os outros – seja o senhor que apanha até a morte na estação de metrô, o filho do vizinho que foi expulso de casa por ser gay ou o colega que vota diferente de você – como parte de nós. De um todo. Você pode até não ver a linha invisível que nos conecta, mas ela está ali, e cada vez que uma pessoa cai por uma das (várias) coisas absurdas e tristes que aconteceram como nesse ano, todos nós caímos um pouquinho também. E, vendo esse fechamento dolorido de 2016, o abismo já está logo ali.

2016 não foi um ano fácil. Não tem nada que aparente que 2017 será melhor. A única coisa que podemos fazer é a nossa parte – e, em momentos como esse, omissão mata. Enquanto você não enxerga que a dor do vizinho também é sua, ela mata cada vez mais.

 

Para quem sempre nos acompanha aqui no blog, deve ter achado esse texto bem deprê, especialmente falando de fim de ano. Eu sempre pensei no Pequenos Monstros em um lugar pra ser exclusivamente positivo e pra falar de coisas bacanas, mas aos poucos estamos trazendo também nosso posicionamento sobre assuntos que acontecem por aí e não são felizinhos, positivos e transformadores. São reais. Quem me segue no Facebook sabe que sou bastante ativa por lá falando sobre esses temas, o que não costumava acontecer muito aqui dentro do blog – até agora. Não dá para nos silenciarmos em questões tão importantes para nós.

 

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