Desafio Literário: Vozes Roubadas #DLdoTigre

Eu sempre gostei muito de ler. Lembro quando minha mãe saía de casa para ir a feira e eu sempre ficava esperando ela voltar com um monte de gibis e almanaques da Turma da Mônica comprados na banca, que eu lia correndo quase no mesmo dia. Sempre fui do tipo que toma banho lendo as letrinhas miúdas do shampoo, sabe? Uma, duas, quinze vezes.

Hoje eu vi a Ari, do Indiretas do Bem, postando sobre o Desafio Literário do Tigre e fiquei com vontade de fazer também. Terminei um livro há alguns dias e a ideia caiu certinha. Começando agora, o objetivo é fazer uma resenha de livro por mês até o fim do ano. Me ajuda a escrever mais e a ler mais, duas coisas que eu amo e quero exercitar muito em 2014.

Eu comecei esse ano com o objetivo de zerar a minha prateleira de livros, e um deles estava por lá desde que o Fê saiu de casa. Peguei da prateleira dele, que comprou depois de uma palestra da autora na escola em que ele estudou.

O livro é Vozes Roubadas, uma coletânea de diários de guerra escritos por crianças e adolescentes e compilados por Zlata Filipovic – que também tem um trecho de seu diário de guerra publicado no livro – e Melanie Challenger. No começo de cada diário, eles dão um panorama histórico da guerra de acordo com o país em que a pessoa vive e explicam o momento que elas estão escrevendo. São histórias contadas no meio da Primeira Guerra, da Segunda Guerra, na Guerra do Vietnã, dos Bálcãs, da Intifada e até do Iraque, a mais recente delas.

O livro mexeu bastante comigo não só porque eu me interesso muito pelas histórias de guerra – era meu assunto favorito na escola, aliás –, mas porque são histórias muito simples, de adolescentes e suas tardes nas aulas de piano, seus amigos, a festinha da escola…e tudo isso é roubado pela guerra. Tem a história de uma garota querendo ir para o front lutar pelo seu país só porque o menino que ela gosta foi mandado pra lá há algumas semanas, por exemplo. É uma mistura de realidade, com aulas, brincadeiras com as amigas e domingos na igreja com (o que parece) ficção, casas sendo explodidas no bairro, a pracinha que se passava a tarde até a semana anterior virando um acumulado de corpos de amigos despedaçados por tiros e muitos abrigos antibombas.

Indico esse livro para quem, assim como eu, se interessa pela parte mais humana da guerra. Para quem quer saber o que passa na cabeça de quem vai lutar pelo seu país, o que as famílias que não abandonam suas casas imaginam, o medo e a coragem de abrigar pessoas caçadas embaixo de seu próprio teto, como lidar com a fome de famílias inteiras escondidas num subsolo frio…histórias. Histórias reais, tristes, assustadoras, mas que mostram que dentro do panorama todo da guerra que estamos acostumados a ver existem pessoas, vidas, sonhos. E que tudo isso foi roubado de cada uma delas, crianças, adolescentes, adultos e idosos por motivos políticos e religiosos. Independente do lado que ela está.

Dois diários me chamaram atenção, um de uma garota palestina e outra de Israel, e cada um fala sua visão da disputa de terras entre eles. É impressionante como você consegue amarrar as duas histórias em uma só, mesmo cada uma de um ponto de vista. Ambas estão com os mesmos medos, traumas, sentem as mesmas perdas, tristezas e querem voltar a viver normalmente com suas famílias, só isso. Elas são iguais. Poderiam ser amigas, sabe? Embaixo de todo esse pano vermelho da guerra se esconde uma rotina comum de cada uma dessas pessoas. São vidas, sonhos, tudo engolido. Eles querem viver, estudar, formar família, viajar o mundo, sair com os amigos, tomarem um suco com o paquerinha e serem felizes. Sem histórias mirabolantes. Só voltarem a viver uma rotina comum, que é tão preciosa e igual a todos, seja aqui ou na Bósnia.

O título de um livro nunca caiu tão bem. São Vozes Roubadas.

Vozes Roubadas
Zlata Filipovic e Melanie Challenger
Cia das Letras

 

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