A experiência de viajar sozinha

Eu não sou uma das pessoas mais experientes do mundo em viagens. Na verdade, estou bem longe disso e do meu objetivo de conhecer todos os países do planeta. Só que como uma boa louca por entrar no avião e sair num lugar diferente, eu nunca deixei algumas limitações bobas pararem minha oportunidade de conhecer tudo que eu podia. Uma delas, que as pessoas acabam ficando bem curiosas sobre, é o fato de que eu viajei sozinha algumas vezes e vivo dizendo para as pessoas fazerem o mesmo.

Na verdade, eu tive duas experiências viajando sozinha, uma com 19 e outra com 21 anos. (Disney não conta mesmo se for sozinha, né?)
Comecei mochilando pela Argentina, aqui perto, com a ideia de que se alguma coisa desse errado a passagem era mais barata para voltar ou para alguém ir até lá me resgatar. Sem noção, eu sei, mas esse pensamento que confortou meus medos pré viagem.
Tempos depois, fui conhecer o Reino Unido (e a Irlanda), já mais longe e um pouco mais segura, achando que sabia o que me esperava em uma viagem completamente sozinha. Eu já tinha um pouco mais daquela confiança de que sabia onde estava me metendo, mesmo conhecendo países diferentes. No fim, foram viagens totalmente novas, já que nenhuma delas é igual a outra, mas deixaram o mesmo sentimento por aqui.

Muita gente até hoje me pergunta como é viajar sozinha, ainda mais por eu ser mulher. Se é seguro, se não dá medo, se você não se sente solitária ou se você não acha ruim ter que tirar as suas próprias fotos. São milhares de perguntas, de verdade. E, não importa o quanto eu defenda que as pessoas deveriam ter pelo menos uma experiência de viajar completamente sozinhas na vida, todo mundo ainda me olhar com desconfiança.

É claro que eu passei por perrengues e imprevistos, como em qualquer viagem que se preze. Viajando sozinha eu perdi mala, perdi voo, quase fui deportada, tive que despistar um cara que estava me seguindo de madrugada, dormi em quartos compartilhados com outras 10 pessoas, me arrependi da hospedagem que escolhi, passei mal por comer alguma coisa estragada, fiquei doente e não tinha ninguém pra cuidar de mim, me perdi um bilhão de vezes e achei que nunca mais acharia o caminho de volta e, se eu ficar lembrando aqui, não paro nunca mais. E na real tudo isso faz parte de viver, seja sozinha ou acompanhada. Você está sempre sujeito as coisas saírem do seu controle. Hoje, algumas até se tornaram lembranças legais – outras não, definitivamente –, mas tudo faz parte das melhores experiências que eu já tive na vida.

Foram nos perrengues que eu aprendi a me virar melhor sozinha, a falar com quem eu quisesse ou precisasse, que tive que improvisar, dar meus jeitos, resolver só os meus problemas, me preocupar só comigo e crescer um monte. Todo mundo precisa saber se virar completamente sozinho. E aprender na marra, numa viagem incrível, foi uma das melhores coisas que eu já fiz. E ainda tenho muita coisa a aprender.

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Viajar sozinha, para mim, foi uma das maiores experiências que eu tive para me conhecer como pessoa da forma mais crua possível. Sempre digo que, quando você viaja sozinho, não tem ninguém do seu lado duvidando das suas atitudes ou te lembrando de como você era antes de pegar aquele avião, só você mesma, sua consciência e suas atitudes à partir dali. Viajar sozinho te dá uma liberdade para testar novas manias, novos jeitos de conversar com as pessoas, conhecer coisas novas, coisas velhas ou só ficar na sua. Te dá a chance de fazer o que você quiser sem ter interferência de absolutamente ninguém. Seja falar com todo mundo num bar mesmo você sendo tímido ou encarar aquela trilha de 15km no meio das montanhas, mesmo que você nunca tenha sido muito chegado a esses passeios que envolvam natureza. Quem sabia que você não era assim antes? Talvez o seu novo eu goste da mudança.

Viajar sozinho te dá a liberdade para ser quem você quiser. A cada dia que você acorda, são novas pessoas que você vai conhecer, assuntos diferentes e, porque não, um jeito novo de pensar? A cada dia você pode treinar algo que nunca teve coragem na frente do pessoal do seu trabalho porque eles iriam estranhar sua mudança de comportamento do nada.

Quando você acorda e sai para o café no seu hostel, você é uma folha em branco para todo mundo que está ali, e só cabe a você mesmo desenhar o que quer ser naquele dia.

São nessas oportunidades que você descobre um novo hobby, faz um novo amigo e treina uma nova língua, sem precisar lembrar que o seu velho eu jamais faria aquilo. O seu velho eu foi embora, e hoje você já é uma pessoa nova e totalmente diferente. Mas só até amanha, porque amanhã você pode decidir o que vai ser quando acordar. Sem julgamentos ou desconfianças, só agindo do jeito que você levantou, seja ele como for.

Não é questão de fingir ser quem você não é. Muito pelo contrário. É ser você mesmo de forma tão profunda, cavando toda a sua essência, sem vícios, sem trejeitos, sem os costumes de estar no mesmo ambiente de sempre que, no fim, você acaba descobrindo outras partes de você mesmo que nunca soube que existiam. É uma descoberta diária, tanto das pessoas que você conhece e fazem a sua viagem ainda mais interessante, como de você mesmo. É se olhar no espelho e escolher qual pedaço da sua personalidade você vai abraçar hoje.

Se eu pudesse dar uma dica para qualquer pessoa que está se sentindo meio perdida na vida, eu diria para ela tirar umas férias sozinha.

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