Os estranhos que nos levaram a Lisboa

Essa semana nos mudamos de Córdoba para Lisboa.
Fácil! Espanha pra Portugal é rapidinho. Tá logo ali, tudo hermano.
Só dirigir 5 horinhas e XABLAU! Já estamos lá.
Ou pega o trem rapidinho. Europeus love trens. Tem pra todo lugar.

Vamos só reservar aqui tudo rapidinho na internet e prontOPA!
Como assim não tem trem de Córdoba pra Lisboa?
Como assim não aceitam cachorros com mais de 10kgs nos ônibus?
Como assim nenhuma empresa de aluguel de carros deixa alugar na Espanha e devolver em Portugal?
Como assim a única forma fácil de ir de Córdoba para Lisboa é por teletransporte?
COMO. ASSIM.

E, faltando duas semanas para irmos embora, nos descobrimos mais ilhados em Córdoba do que o Wilson na ilha lá.
Pedimos ajuda no Facebook e muita gente nos ajudou dando várias sugestões.
Obrigada, gente, vocês foram demais.

A procura do caminho perfeito, tentamos de tudo.
Uma pitada de trem, um toque de ônibus, um carrinho no capricho.
Nenhuma receita parecia dar certo para que esse trajeto fosse mais fácil.

Aí de repente surge uma luz no fim do túnel.
Essa luz se chama João, um amigo de uns amigos nossos que adora se meter em roubadas.
João se ofereceu para dirigir três horas de Cascais para Badajoz (roubada), pegar nós (roubada), os cachorros (roubada!!) e nossas malas (roubada!!!!!), voltar mais três horas até nos deixar na nossa casa nova, em Lisboa. Roubada.
Você tem noção de como o João vai para o céu de limusine?

Pensamos um monte, mas não tinha mesmo jeito.
A melhor solução era dar trabalho para o João.
E assim foi decidido.
Tudo resolvido. Fim do post.

Mentira. Tava tudo só começando.

Leia também: Como transferir dinheiro para Portugal – a melhor forma!

Fomos alugar o carro e não tinha mais nada em Córdoba. “Só Sevilha, senhor.”
Nessa hora, a gente já estava conformado com nosso sofrimento. Desse rosto não caem mais lágrimas!
Não deu outra: o Fê pegou um trem logo cedo, foi até Sevilha, alugou o carro e dirigiu mais 2h até Córdoba para pegar eu, os cachorros e as malas.
Tudo resolvido. Fim do post.

Mentira. O carro era pequeno e não cabiam todas as nossas coisas.
Por coisas, entendam: duas pessoas relativamente pequenas, dois cachorros, duas caixas de cachorros, duas malas de uns 50 kgs, uma mala de mão de 15 kgs, duas sacolas e duas mochilas.
Só faltava um português, a sogra e o papagaio para completar a piada.
O português ainda tava a caminho de Badajoz.

Passamos duas horas brincando de Tetris para fazer caber tudo dentro de um Golf.
E fizemos.
Acho que depois dessa vamos abrir uma consultoria de “Como Vencer a Física e Fazer Caber Todas as Suas Malas Em Um Carro”.
Deve dar uma grana.

Dirigimos mais três horas até Badajoz e encontramos o João.
Descobrimos que o carro dele é um Peugeot 206. Menor do que o nosso Golf temporário.
Como fazer caber todas nossas coisas?
Só lembrando que, por coisas, entendam: três pessoas relativamente pequenas, dois cachorros, duas caixas de cachorros, duas malas de uns 50 kgs, uma mala de 15 kgs, duas sacolas e duas mochilas.
Dessa vez só faltava a sogra e o papagaio para completar a piada.

Mas conseguimos!
O Fê com uma mala no colo no banco do passageiro revezando qual das pernas iria circular o sangue.
O João dirigindo, tentando enxergar o retrovisor pelos buracos das caixas dos cachorros.
A Lisa e o Luca juntos dentro de uma caixa pequena, prontos para serem levados para um restaurante coreano.
E eu no banco de trás, aproveitando toda a elasticidade que a academia me deu para caber de alguma forma.

Mas conseguimos!
Umas horinhas depois chegamos em Lisboa!
Tudo resolvido. Fim do post.

Mentira. Começou a chover.
E sabe como é, né? Com a chuva sempre vem mais história pra prender vocês nesse post já imenso.
Descobrimos logo nos primeiros 5 minutos o porque de Lisboa ser chamada de “cidade das sete colinas”.
Sete formas de fazer você suar frio enquanto o carro pesado tenta subir as ruas escorregadias.
Ou, no português do povo, no português de raiz: sete formas de estar na merda.

“Ufa! O GPS diz que é virando logo essa rua aqui.”
Tinha um outro carro vindo na direção contrária. E ele ficou lá, parado.
Depois de uns momentos de tensão que pareceram aqueles filmes de velho-oeste, desce um cara do carro e diz: “essa rua é pequena demais para nós dois”.
Na verdade, o que ele disse mesmo eu não consegui entender, mas aprendi a falar vários palavrões com sotaque lusitano.
E aprendi também que o GPS tinha mandado a gente pra uma rua contra a mão.
Só não choramos porque o João estava ali do lado.

Depois de mais umas voltas, tentando encontrar como chegar na casa, nos lamentando pelo “tão perto, tão longe” e descobrirmos que o bairro era fechado para moradores, finalmente chegamos.
Chegamos na rua e fomos recebidos por portugueses falando tudo ao mesmo tempo e a dona da casa nos cumprimentando com “beijocas de boas vindas”.
Dois beijos cada um.
Até no pobre do João, que ganhou sua passagem para a sala VIP do céu.

Só depois das beijocas ela nos disse que aconteceu um errinho e o nosso apartamento só estaria disponível amanhã.
Tá. Me. Zoando.
Pelo menos eles são donos de outros 10 na rua e nos colocou em um outro na primeira noite.

Abrimos o carro e, numa força tarefa incrível, a portuguesa, o cara que trabalha com ela, o Fê, o João, eu, a Lisa e o Luca estávamos com tudo no nosso apartamento em 10 minutos.
Tudo isso escalando degrau por degrau nos três andares que eram tão altos que serviram como 2 meses de academia.

No fim, foram 16 horas, quatro meios de transporte e muitas dores nas costas de todo mundo para classificar essa como mais uma das aventuras de ser nômade.
Mas chegamos. Estamos bem e o João garantiu sua pulseirinha para o céu.
Tudo resolvido. Fim do post.

E ainda tem gente que diz que passar perregue é legal porque nos dá histórias pra contar.

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