Qual a diferença entre uma cidade para turistar e para viver?

Nesse mês passamos um final de semana em Bruxelas, a capital da Bélgica.
A escolha da cidade foi uma mistura de passagens-por-10-euros com será-que-a-gente-mora-lá-esse-ano? e isso acabou nos empurrando para explorar essa cidade que não fazíamos ideia de como era. Já que a gente tinha treinado um pouquinho nosso francês em Paris, também resolvemos ir pra lá praticar nosso avançado “parlez vous anglais?”.

Mas muita calma nessa hora – estou me antecipando por aqui.

Para quem nunca ouviu falar muito sobre Bruxelas, a capital da Bélgica – pelo menos não até os atentados de ontem 😔 – dizem que ali é a “capital da União Européia“. É lá onde sempre acontecem as comissões européias e onde a “união européia foi criada”, fora vários outros prédios administrativos da UE. Muito mais conhecido que isso, no entanto, a Bélgica toda é famosa por um combo de coisas maravilhosas: cervejas boas, chocolates ótimos, waffles e batatas fritas. E quando você começa a pesquisar lugares para conhecer em Bruxelas descobre que, basicamente, a cidade é um reduto dessas quatro coisas e elas ficam gritando pra você deixar sua câmera, sua camiseta florida e o seu desejo de conhecer pontos turísticos de lado e simplesmente aproveitar.

A Bélgica é um país meio maluco, com três idiomas oficiais: flamengo (uma variação do holandês), francês e alemão, em uma pequena parte. As placas de Bruxelas são sempre em flamengo e também em francês, e você está sempre ouvindo as duas línguas se misturarem nas conversas alheias. É uma coisa meio maluca, mas que parece bem interessante: já pensou ter nascido na Bélgica e desde pequeno já falar não uma, não duas, mas três línguas? Quatro se contar o inglês ainda! Na prática não deve funcionar bem assim, mas não custa nada sonhar.

Mesmo tendo viajado há tão pouco tempo para Paris, não paramos de trabalhar nem um diazinho sequer, e Bruxelas foi usada para um almost-weekend-off – continuamos trabalhando pelo celular, mas quase não usamos o notebook por magníficos dois dias e meio! Queríamos aproveitar a vida na cidade, beber, comer um monte e só.

Por sorte, nossas expectativas estavam muito bem alinhadas com a cidade escolhida. YES!

Acho que podemos dizer que Bruxelas tem pouquíssimos pontos turísticos e todas as dicas que nós recebíamos envolviam alguma coisa desse combo maravilhoso batata-chocolate-waffle-cerveja.

Comemos maravilhosamente bem em todos os lugares que fomos, bebemos cervejas fantásticas (cerveja trapista é vida, amigos), curtimos várias regiões diferentes da cidade e não nos demos obrigação nenhuma nesses dias. Minha única preocupação em Bruxelas era cobrar a pet sitter de me enviar fotos da Lisa e do Luca de tantas em tantas horas – porque sim, eu sou louca assim mesmo.

Nessas idas e vindas regadas a cervejas, bares, cafés, batatas fritas e milhões de chocolates descobrimos que Bruxelas não é mesmo uma cidade legal para fazer passeios turísticos. Até tentamos alguns, mas… nhé. Pra vocês terem ideia, uma das coisas mais famosas da cidade é um prédio em formato de átomo que fica há 7 quilômetros do centro, o Atomium, que custa 12 euros para entrar e dizem ser bem sem graça. Na dúvida e na falta de tempo dentro dessa nossa rigorosa programação para engordar de vez, não fomos. Fizemos aqueles caminhos turísticos para conhecer as partes mais importantes da cidade, compramos souvenirs do Tintin – ele é de lá! – e acho que, turisticamente falando, foi isso. Nem no menininho fazendo xixi – a ~famosa~ estátua Manneken Pis – acabamos passando.

No caso de Bruxelas, beber cerveja trapista e fazer degustação de batatas fritas também conta como passeios turísticos, e isso a gente até que fez bastante. Tá valendo, né?

Enquanto passeávamos pelas ruas da cidade, chegamos a uma conclusão que define muito o sentimento dali: é uma mistura das coisas lindas de Paris com as coisas mais moderninhas de Praga, na República Tcheca. As pessoas de Bruxelas também se vestem muito bem, como os franceses, mas de um jeito cool, mais urbano, diferente de Paris. Uma coisa mais street style da vida real, não aquela beleza impecável e quase impossível de aplicar para nós, reles mortais.

Agora copie e cole essa sensação em todos os lugares de Bruxelas. As pessoas da cidade são super amigáveis, muita gente fala inglês, tem uma quantidade absurda de pessoas jovens, é possível atravessar a cidade toda a pé – lógico que nós fizemos isso e andamos ~apenas 18km~ em um só dia – e você se sente em uma cidade mais acessível como um todo. Não dá medo de pisar no jardim porque ele está impecável, tem vários graffitis espalhados pelas ruas, as pessoas são bem mais tranquilas e tal.

Mas, quando eu falo acessível, não entendam financeiramente: Bruxelas também foi uma surpresa para nossos bolsos. Comemos maravilhosamente bem por ali – vamos fazer um guiazinho da cidade – mas também não pagamos pouco por isso. Para fazer compras e beber o preço é bem justo, mas achamos a comida em restaurantes bem mais cara do que estávamos imaginando. Ainda assim, comemos absurdamente melhor do que em Paris, que só tínhamos dinheiro para um croissant. Como já era de se esperar, a aceitação de vegetarianos em uma cidade moderninha como Bruxelas também é bem maior do que em Paris.

Pra gente, Bruxelas é uma cidade feita para você curtir. Para parar de bar em bar bebendo cerveja boa. Para fazer amigos. Para comer bem. Para aproveitar o sol nas dezenas de mesinhas que ficam para a rua. É o tipo de cidade realmente para viver, que queremos passar semanas, meses. Conhecendo melhor sua cultura, suas pessoas e suas histórias.

É o tipo de cidade que não vai te conquistar se você quiser ver os pontos turísticos mais importantes do mundo – porque, convenhamos, não tem quase nada. Ela só vai te conquistar se você quiser viver uma cidade diferente. Aproveitar seus bares, conversar com as pessoas, ficar observando eles curtindo qualquer solzinho que aparece e não parar de se questionar como é possível ter tanta gente jovem nesse lugar – até quem é velho também é novo, sabe?

Depois de algumas horas você vai entender: simplesmente porque Bruxelas é cool demais.

Comentários