O mundo está ficando todo igual, vá a caça

Você chega super ansioso no supermercado da Bratislava. “Ah, estamos na Eslováquia, né? Deve ter um monte de coisas diferentes.” Adria, Milka, Oreo, Lindt, Colgate, Nivea.

Nas ruas de Berlin? KFC, McDonalds, Starbucks, Fiat, Volkswagen, Nike, Zara.

O que a 5th Avenue, a Avenue Montaigne e o Shopping Cidade Jardim tem em comum? Além de Prada, Gucci, Chanel, Valentino, Louis Vuitton, Ralph Lauren e do fato de que a gente não consegue comprar um café por lá?

“Ich möchte zwei Bier vom Fass, bitte”. Tenho que treinar meu alemão. “Zwei Bier vom Fass”. Two beers on tap for you, sir! Como vou aprender alemão assim?

Se por uma lado, a globalização traz muitas vantagens, ela também pode deixar todos os lugares iguais. Se eu tirar uma foto do supermercado aqui em Barcelona, você praticamente só não acha que estamos no Brasil porque está tudo em espanhol e cobrado em euro.

Os vendedores ambulantes falam inglês com você. Aquele relógio inspirado nos derretidos de Dali pode ser comprado em Palermo, Mitte, Chinatown, Ramblas ou na 25 de Março. Ônibus vermelhos de dois andares fazem tour com turistas em todas as capitais. Até os garçons franceses estão recebendo cursos para serem mais simpáticos, agindo como os do Outback. Aliás, como assim não comem blooming onion na Austrália? Eu comi em restaurantes australianos pelo mundo todo.

Dê like na nossa página do Facebook. Check-in on Foursquare. Review us on Yelp and TripAdvisor. Dois chocolates no travesseiro. Placas com frases engraçadinhas no hostel. Taxi. Beer. One. Two. Only cash, sir.

Estátuas da Liberdade. Made in China. Autênticos relógios alemães de parede. Made in China. Touros espanhóis a la Gaudi. Made in China. Porcelana chinesa. Made in South Africa.

Nas rádios do café de Barcelona, do bar de Berlin, do restaurante tcheco: Beyoncé, Maroon 5, Pitbull, a nova da Rihanna. O top 20 de meio mundo é igual no Spotify e fora dele.

O mundo todo venera o mesmo chocolate, veste as mesmas roupas, ouve as mesmas músicas, bebe o mesmo chá e fala o mesmo inglês.

Obviamente, nada disso tira a maravilha que é viajar, mas aquela imersão profunda em uma cultura nova fica a cada dia mais extinta, ao menos na parte ocidental do mundo. É ótimo conseguir se comunicar em qualquer lugar falando só uma língua, mas uma viagem poderia nos ensinar bem mais se fizéssemos questão (e fosse obrigatório) reaprender. Reaprender a se comunicar, a comer, a se locomover, a viver.

Falar com pessoas que vivem naquele lugar é uma das formas de tentar fugir dessa homogeneidade de todos os lugares? Sim. Mas eles também estão indo ao McDonalds, comprando nos mesmos lugares e ouvindo as mesmas músicas.

A cultura e as tradições de um país são coisas que realmente nos fazem enxergar o mundo com outros olhos. Mas eles estão sendo cobertos por cadeias de marcas, restaurantes e costumes iguais. E aí sentimos a necessidade de cavar cada vez mais fundo. Procurar os bairros que ninguém fala, caminhar pelas ruas residenciais, fazer amigos locais, caçar uma experiência real daquele lugar.

Essa homogeneidade das cidades traz uma necessidade de encontrar o diferente, fazer o exclusivo, entrar em contato com o local. E é dela que surgem as empresas como o Airbnb, sites para fazer turismo com locais e até os próprios blogs, como o nosso, compartilhando o que descobriram de diferente dessa massa idêntica que o mundo está se tornando. E que, mesmo assim, nem sempre funciona. Mas até onde a gente consegue cavar, especialmente em cidades turísticas extremamente famosas? Alguma hora a terra vai acabar.

E é por estar tudo se tornando tão parecido que é tão legal e recompensador encontrar um lugarzinho escondido, sem menu em inglês, com aquele velho mal humorado do outro lado do balcão perguntando o que você quer na língua local. É uma das coisas que mais marcam a gente em qualquer viagem que ficam cada vez mais difíceis.

Por isso, fica aí uma sugestão para quando você for viajar: vá a caça. Perca-se, descubra coisas novas, encontre aquilo que mais te parece genuíno no meio de tantas câmeras fotográficas e paus de selfie. Não há problema nenhum em se deixar levar pela comodidade do que você já conhece, mas não transforme isso na sua única forma de viajar. Você vai ver como encontrar alguma experiência que ainda não tem o preço tabelado em dólar pode ser recompensador.

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