Sério que você acredita no Instagram?

Hoje apareceu na internet a história da Essena, uma garota famosa no Youtube e no Instagram que, por se sentir pressionada pelos próprios fãs a ser alguém que ela não era, decidiu deletar seus vídeos mais populares, apagar boa parte de suas fotos, editar a legenda de várias delas dizendo a realidade que estava acontecendo naquele momento e criar um movimento para “nos libertarmos das redes sociais“.

É aquela história, já óbvia demais para muita gente, de que as redes sociais não são um reflexo exato do que você está vivendo.

Acho que o grande propósito das redes sociais não é e nunca foi mostrar seu cotidiano – a não ser em algumas redes, como o Snapchat, e nem nele é tão natural assim – mas sim compartilhar o que você acha de mais interessante naquele dia, na semana ou no ano. E talvez a parte mais interessante do seu dia não seja trabalhar de pijama com uma xícara de chá meio vazia. As redes sociais são, sim, um só pedacinho bem pequeno da sua vida. Aquela olhada rápida pela janela. Só um frame. E eu não consigo entender porque as pessoas acreditam que isso seja um problema.

Por trás de cada foto do Instagram existe um punhado de realidade que ninguém vê. Porque quase ninguém faz questão de mostrar e guardar aquela cena para sempre. Sabe quando um personagem resolve mudar de vida em um filme, e toda a história acelera com uma música de fundo enquanto ele faz várias coisas para chegar no seu objetivo final, que é o que realmente importa ali? É um ótimo paralelo entre a nossa vida real, comum, palpável. Essa que existe entre os cliques lindos que você publica no Instagram quando para de trabalhar por 5 minutinhos – exatamente da mesma forma que todas as outras pessoas.

Quando você abre os álbuns de fotos antigas da sua família, o que você vê? O casamento dos seus pais, seu aniversário de sete anos, um dia que você se vestiu de caipira no colégio, sua cachorra bebê embaixo da mesa de Natal. Fotos são um reflexo de coisas que você quer guardar para sempre e lembrar, com imagens nítidas, quando quiser. Eu aposto que você vai encontrar poucas fotos mais “reais” de você com o dedo no nariz ou da sua mãe cozinhando o arroz e feijão de todo dia. Muito menos fotos de momentos tristes.

E aí você vai dizer: ah, mas passaram dos limites, agora as pessoas fotografam até os pratos que estão comendo! E, sim, elas fotografam. Porque agora você não tem só trinta e seis poses em cada filme e não custa quase nada ter tantas memórias – só espaço digital. Quando a fotografia deixou de ser algo precioso para se tornar um registro de coisas que você acha legal lembrar no futuro, paramos de preservar esses cliques para um momento único, raro e especial. O almoço no restaurante novo pode ser especial, sim. Mas antes não era tão especial para você gastar uma das suas trinta e seis poses. Você, lindérrima na praia com o cabelo maravilhoso, também pode ser algo legal de guardar para a eternidade. Pode ser algo legal para você olhar quando se sentir horrorosa porque dormiu de maquiagem e bebeu demais. Pode ser legal para aquele cara muito gato querer sair com você. E, nessa altura do campeonato, as pessoas já deveriam entender que talvez você nem esteja mais na praia. Ou tenha – ohhh! – encolhido a barriga para fazer o clique.

Isso tudo, é claro, só continua fazendo sentido se as fotos que você publica ainda te fazem feliz. Refém ou não dos likes dos seus amigos, enquanto aquilo continuar te satisfazendo, é totalmente válido. As redes sociais e a internet são apenas frações da vida de todos nós. Ao invés de pedirmos para os outros serem mais cautelosos com o que publicam, nós é que devemos olhar para as fotos com uma visão menos sonhadora e utópica.

O que sempre precisamos lembrar é que a ÚNICA coisa que enxergamos sem edição é a nossa própria vida. O Instagram é uma edição da vida alheia. Os vlogs. A campanha nova que a moça do Instagram está lançando. Os filmes. As séries. Até mesmo a história que sua amiga te conta no bar é editada. Sua vida só parece tão entediante assim porque você a vê 24 horas por dia. Cortada e editada nos momentos certos, pode parecer a rotina mais incrível do mundo.

Você quer guardar momentos infelizes para sempre? Eu não. Suas redes sociais mostram, para você e para o mundo, só o que você quer lembrar. Da mesma forma que os álbuns da vovó só mostram a família unida, não todas as brigas que aconteciam nos almoços de domingo. Porque essas memórias ruins não valem tanto assim.

Ninguém quer lembrar de uma cara inchada de ressaca, um dia cinzento ou um almoço que ficou horrendo. Isso existe na vida de todos nós, e é justamente por ser tão comum, sem graça, sem brilho para quem viveu e para quem vai ver, que ninguém quer postar nas redes sociais. Não queremos gastar nossas 36 poses nisso. Não queremos lembrar desses momentos e nem que os outros lembrem deles para nós. Queremos guardar – e compartilhar – momentos bons, nossos melhores sorrisos, as padronagens lindas de um prédio que encontramos a caminho do trabalho ou qualquer outra coisa que, durante um dia péssimo ou incrível, te fez sorrir.

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Queremos lembrar de pedaços da nossa vida que, mesmo que o dia esteja uma merda, acabamos encontrando beleza ou algo legal a dizer. Mesmo que seja em uma fração de segundo, montamos nosso prato no kilo de uma forma bonita, fotografamos e sorrimos. E isso não é errado. Maluco é achar que nossas três refeições diárias são assim porque você viu uma foto.

O problema acontece como em histórias da Essena, em que ela virou escrava de uma imagem que não é sua para agradar gente que ela não se importa. Ainda assim, usa suas próprias redes para compartilhar fragmentos dessa “nova vida sem redes sociais” que ela pretende levar. Mas isso não é culpa do Instagram, do Facebook ou do Snapchat. Essa história poderia acontecer pela internet. Poderia acontecer no trabalho. Ou poderia acontecer na balada que você vai toda sexta e é julgado se não está com a roupa apropriada. Acontece na vida o tempo todo. É a mesma sensação de impotência em que você pode se sentir obrigado a ser alguém que você não é, só para fazer as pessoas que você não se importa felizes.

Não, redes sociais não são um reflexo de uma vida inteira. E acho que já passou da hora de nos acostumarmos com isso. Seus filmes de criança naquelas fitas cassetes enormes não mostram sua infância almoçando ou fazendo a lição de casa. Porque não era nada especial. E, se alguém gravou essas cenas cotidianas “sem nada importante”, provavelmente sua irmã mais velha cobriu o vídeo com algum seriado americano meses depois.

As redes sociais são só um frame de bilhões de milisegundos que compõe a vida de todos nós. São só um trechinho, minúsculo, dos nossos pensamentos, sonhos e ideias. É só uma saída de 10 minutos até o supermercado que pode render um texto, doze fotos e três tweets. São trechos que podem mudar o mundo, influenciar pessoas ou transformar pensamentos. Mas são só uma parte do que nós somos. Nossas redes sociais são, meramente, um reflexo do que queremos lembrar e da forma que queremos que o mundo nos enxergue.

Suas redes sociais são como uma revista em que a única pauta é VOCÊ, que é editada, fotografada, revisada e publicada por apenas você mesmo. É claro que, mesmo que você evite, ela vai ser tendenciosa. E isso acontece com as redes sociais de todas as pessoas, famosas ou não, loucas da selfie ou não.

Já passou da hora de nós entendermos que a vida alheia não é só feita do que uma pessoa publica na internet.

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