Te fizeram acreditar que você é uma vadia

Você cresceu ouvindo que mulheres eram interesseiras e que não existia amizade entre elas. Que mulher precisa ser sexy sem ser vulgar, meio perdida assistindo a Banheira do Gugu logo depois que acabavam os desenhos animados. Foi zoada na escola por não ser tão bonita e tentou de todo jeito se encaixar no grupinho das populares simplesmente para todo mundo te deixar em paz – e, quem sabe, você parar de ser considerada tão bizarra.

Disseram pra você que carrinhos eram coisa de homem e que seus interesses deveriam ser mais femininos. Largou suas camisetas de bichinhos para tentar se encaixar num padrão de mulher quando ainda tinha onze anos, porque ninguém conseguia entender “como uma moçona dessas ainda se veste como criança”. Te deram Barbies com corpos esculpidos em plástico e uniformes escolares justos mesmo na escola religiosa, garantindo que seu corpo ficasse bonito ali dentro. Porque as meninas precisavam ficar bonitas para estudar, é claro.

Fofocaram pra você, no banheiro da escola, que a fulana já usava sutiã e andava de mãos dadas com o Renatinho. A primeira coisa que você disse, em coro com suas amiguinhas, foi: que vaca.

Recebeu a primeira cantada na rua de um cara que tinha idade para ser seu pai e voltou correndo pra casa achando que você era culpada. Conversou com os outros e concluiu: você era mesmo culpada por ter saído daquele jeito. Com aquela roupa. Aquele cabelo. Indo pra academia de legging. Saindo do handball de shorts. Indo trabalhar de jeans justo. Aprendeu a usar roupas bonitas, que agradassem aos outros e que pudessem ser escondidas por um casaco todas as vezes que você fosse pegar um ônibus, metrô ou subir a rua de casa. Um dia que você saiu de shorts para ir até a padaria e ouviu crianças com a metade do seu tamanho gritando do outro lado da rua o quanto você era uma piranha.

Você cresceu acreditando que precisava se encaixar em um padrão. Um padrão sexy, discreto, de cabelos lisos e peso magro. Que seus peitos precisavam ser maiores do que eram, que suas calças precisavam se ajustar perfeitamente ao seu quadril e seu cabelo deveria estar sempre liso e penteado. Conseguindo ou não equilibrar todas as exigências do mundo ao seu redor, a resposta era a mesma de sempre: alguém ia tentar se esfregar em você no ônibus, te puxar para o apartamento do vizinho, te agarrar a força na balada ou julgar sua competência baseada na forma que você se arrumava.

Todo mundo te julgava porque você estava fora do padrão. Você decide se encaixar e, de um segundo para o outro, todos apontaram os dez dedos das mãos tentando provar porque você era uma puta igual a todas as outras mulheres.

E se você não se encaixa, querida, aí você é que está louca. Você é uma vagabunda que quer aparecer sendo diferente de todo mundo. Você é uma puta porque tem tatuagem, porque não usa salto alto, porque tem cara de que gosta de mulher, porque se veste mal. Mas não precisa surtar: você também seria uma puta se fosse o completo oposto da mulher que é hoje.

E é por isso que hoje, na semana do #AgoraÉQueSãoElas, eu vim falar sobre feminismo aqui no Pequenos Monstros. Por causa de cada um dos parágrafos acima que aconteceram comigo, com amigas e com tantas mulheres por aí. Se nós não lutarmos por igualdade, falarmos sobre machismo, violência contra a mulher, abuso e tantos outros temas que nos acompanham desde a infância, continuaremos correndo riscos e, no futuro, nossas filhas também.

Durante muitos anos nos fizeram acreditar que tudo isso era NORMAL. Que mulheres abusadas na rua estão sendo, na verdade, elogiadas. E que o seu medo, a sua paranóia, o seu trauma, é tudo porque você é louca. Histérica.

Esse é o momento que podemos dizer: chega. Isso está errado e precisa acabar agora. Estamos finalmente entendendo a palavra sororidade, dando as mãos para outras mulheres e lutando, juntas, para que nós possamos andar nas ruas sem medo, sermos tratadas como iguais e definirmos nossas regras para nosso próprio corpo.

Se você acha que ser abusada na rua é normal, que ter que escolher uma roupa pensando no tipo de transporte que vai usar é normal, que ter medo de voltar de metrô pra casa durante a noite ou até pegar um taxi com medo de ser estuprada é normal ou que ouvir dos outros que você precisa ser mais discreta para não chamar atenção demais é normal, te convido a abrir a caixinha de machismo e preconceito que você vive e olhar ao seu redor. Se possível, ir viajar, conhecer outras culturas – mesmo as latinas, tecnicamente tão parecidas com a nossa – e aprender o que é respeito e igualdade entre as pessoas.

Que sim, igualdade não é apenas possível, mas é obrigatório. Estamos em 2015, amigos. Pode ser muito fácil aprender que o corpo de cada pessoa não é propriedade de mais ninguém, se não de si mesmo, e simplesmente respeitar o outro, sendo ele mulher, homem, asiático, gay, negro ou trans. É só querer. É só ouvir o oprimido ao invés de berrar o que você acha. Acredite ou não, nem sempre o que você acha é importa. O que os outros sentem e vivem na pele é muito mais importante do que o seu achismo.

Hoje, mais do que nunca, vozes femininas que ficaram caladas por tempo demais estão se pronunciando. A internet abriu espaço para uma discussão maravilhosa sobre igualdade e é nesse caminho que vamos seguir ainda por muito tempo. Com projetos como Vamos Juntas?, Quebrando o Tabu, Empodere Duas Mulheres, Chega de Fiu Fiu, #MeuPrimeiroAssédio do Think Olga, esse vídeo incrível da Jout Jout e tantos outros, estamos juntas, unidas, com o objetivo de nos empoderarmos para criar um futuro melhor para nós e todas as mulheres que ainda vem por aí.

Hoje é o momento exato para se falar de feminismo. E nós não vamos ficar caladas. Ser abusada na rua não é normal. Ter medo não é normal. Saber que uma amiga foi violentada pelo parceiro e ficar na sua não é normal. Comece a enxergar mulheres como amigas, parceiras. Valorize mais as mulheres ao seu redor, torça pelo seu sucesso, entenda que todas nós estamos juntas nessa. Porque ter medo de ser mulher não é normal. Nós não somos culpadas por assédio ou violência nenhuma e não devemos nos envergonhar de falar o máximo possível sobre isso em todos os ambientes que frequentamos.

Porque ninguém mais pode nos calar.

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