Sobre recomeços semanais

Domingo pode ser um dia de acordar tarde sem culpa, tomar café da manhã às 14h e curtir seu próprio sofá com um sorriso no rosto. Até o dia virar noite, a tranquilidade virar depressão pela segunda que vem chegando e o som do Fantástico te dar vontade de se enfiar no armário e trancar a porta por dentro. Lembrou de ontem? Meu domingo normalmente também é meio assim, mas enquanto espero a água do chá esquentar vou revisar minha lista de afazeres da semana que passou. Pra variar, sempre com mais coisas do que 24 horas poderiam suportar a cada dia e já sei que vou começar a segunda atrasada. Sempre existem coisas importantes – essenciais, eu diria – jogadas no limbo do que eu deveria ter feito e não consegui.

Faltam horas na semana para tanto trabalho, produção de textos, gravação de vídeos e todas as entregas que preciso fazer entre segunda e sexta. Do blog, do nosso trabalho, da minha vida, dos meus cachorros, da casa e da nossa empresa. E o domingo é o dia que eu pego cada uma das minhas listas e tento entender como cada coisa foi feita, refeita, desfeita ou sequer vista, pra começar a segunda “do zero”. Eu tenho épocas tão produtivas, épocas tão lerdas e épocas tão fora da curva que toda vez eu erro na minha própria organização de tempo. E isso é uma grande merda.

A depressão de fim de domingo, pra mim, começa já na hora do café da manhã.

Eu ainda nem levantei da cama e já vi doze pessoas curtindo um brunch em restaurantes incríveis. Gente que já se exercitou, fez a marmita para a semana inteira e tá almoçando pastel na feira enquanto eu só estou lutando contra a minha própria preguiça para ir até o banheiro esfoliar o rosto. Aí vou fuçar na vida de um grupo de pessoas bem sucedidas que tem a vida dos meus sonhos ou que conseguem meditar no domingo, entre um email e uma discussão, na sua sacada ensolarada. Ah, que saudades das minhas sacadas ensolaradas.

São duas, dez, trinta pessoas me dando um tapa na cara bem no comecinho da semana me dizendo: tá vendo? É por isso que você não consegue correr no parque, escrever 3 textos, entregar aquela apresentação, gravar dois vlogs, responder 60 emails, passear com os cachorros e conhecer aquele grupo de italianas super gente boa que você viu outro dia no bar e teve vergonha de puxar assunto. Enquanto o mundo está aí, girando, você ainda nem tirou as remelas.

E normalmente eu concordaria com isso, me julgando e apontando o indicador pra mim mesma sem nem pensar duas vezes, como eu costumo fazer sempre. Mas, peraí, cara. Hoje é domingo. Deixa isso pra segunda feira. Nos últimos dias eu fui expulsa de todos os café que trabalhei porque já tinha passado das 11 horas da noite. Eu só tenho sonhado com o que me preocupa e me atrapalho o tempo todo pensando nos outros trabalhos. Eu acordei e fui dormir pensando no que eu preciso entregar, em dinheiro, no que eu preciso fazer e no que todo mundo ao meu redor aparentemente está fazendo e sendo bem sucedido e eu não.

Eu mereço, pelo menos, dormir até às 14h antes da segunda feira chegar. 

E é isso que eu estou tentando colocar na minha cabeça hoje e queria compartilhar com vocês, porque talvez alguém aí esteja precisando de uma segunda de recomeço bem pesada: tudo bem não ter conseguido cumprir as suas quatorze mil obrigações na semana que passou. Às vezes nossa cabeça corre muito mais rápido que nosso corpo. E o nosso dia corre muito mais rápido que as nossas entregas. E isso não é motivo para se odiar, se considerar uma farsa e querer chorar escondida na cozinha.

Essa história maluca de sempre correr atrás e atrás e atrás dos seus sonhos freneticamente sem nem respirar, e criar sua própria forma de fazer dinheiro o tempo todo, que tudo da sua vida está nas suas mãos e depende só de você, que se você não fizer tudo que os outros estão fazendo, juntos, AGORA, é óbvio que você nunca vai ter sucesso e estará sempre para trás é absolutamente surreal. E assustadora. E vem me comendo viva há meses.

Sabe aquela sensação de ter tanto trabalho acumulado que você não sabe nem por onde começar de manhã? É mais ou menos isso. E eu visto o meu chapéu mágico da serenidade para dizer a todos nós: CALMA, cara. Não é bem assim. Quanto mais você se amontoar de “preciso fazer tal coisa urgente”, menos elas vão ser feitas. 

Quando você quer, precisa ou sonha com muita coisa ao mesmo tempo, é difícil respirar fundo, se acalmar e pensar em um passo de cada vez. Eu sei disso MUITO bem. Muito melhor do que eu queria saber. E é normal perdermos o sono, a concentração e às vezes a respiração pensando em tudo que a gente precisa fazer pra “chegar lá”, sem nem saber que lugar é esse. É a nossa ansiedade louca falando alto, muito alto, berrando na nossa orelha com aquela vozinha irritante.

E, de uma forma ou de outra, você precisa fazer ela calar a boca.

Se você deixar, as obrigações da vida vão te engolir sem nem mastigar. Então não existe nenhuma razão lógica para sentar e se lamentar pelo que não foi feito na semana que já passou. Ela já passou. Ao invés disso, pense no lado bom e que vai te deixar mais tranquila: hoje é segunda. Dá pra começar de novo.

Hoje começa uma nova sequência de sete longos dias pra correr atrás de tudo que eu quero e preciso fazer. Hoje começa minha melhor semana para escrever. Minha melhor semana de entregas fenomenais. Meu melhor recomeço virando a pessoa mais produtiva que eu já vi na vida.

Até a semana nos dá a chance de começarmos de novo. E a gente não pode negar esse empurrãozinho.
(ouviu, Debora?)

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