May Day em Kreuzberg

Chegamos em Berlim na primavera, quando o tempo começa a ficar mais quente, o sol aparece e o que as pessoas mais querem é sair pra rua. Alguns amigos meus que já moravam ou moraram aqui me falaram disso, das pessoas irem pra rua, mas nunca entendi direito essa história até pegarmos nosso primeiro dia de sol aqui. As pessoas realmente ocupam as ruas, uma coisa surreal de pensar para quem é de São Paulo como eu. Eles saem e ficam lá, sentados nas praças, na borda do rio, nas calçadas, nas pontes, comendo, bebendo, conversando, jogando um jogo tipo bocha, fazendo churrasco, passeando com os cachorros, fazendo músicas e festas. É um negócio incrível, que só vendo, fazendo parte disso, você entende o que significa.

Então, a toda hora surgem festas nas ruas por aqui. Qualquer feriado vira motivo para sair e comemorar. É claro que, dado todo passado histórico da cidade e essa diversidade absurda da população, muitas vezes essas festas estão ligadas de alguma forma a um conteúdo político forte – acho que da mesma forma que no Brasil, na verdade. Um dos maiores exemplos é a Erster Mai – ou May Day –, a festa do 1º de Maio.

As comemorações desse dia são muito ligadas a chegada da primavera no hemisfério norte desde os tempos celtas. O 1º de Maio é uma comemoração bem forte por aqui, com muita gente “Tanz in den Mai” – “dançando Maio adentro” – em várias festas de rua.

Em Berlim, o grande ponto para aproveitar o dia é a área SO 36, no bairro de Kreuzberg. Essa região sempre foi palco de brigas entre manifestantes radicais de esquerda e a polícia, desde a época em que o muro ainda existia e quando ali ainda era o centro de ocupação dos punks em casas abandonadas. Era na Lausitzer Platz que acontecia uma das maiores movimentações do Dia do Trabalho, uma espécie de feira na rua com vários protestos.

Foi nessa região, no dia 1º de Maio de 1987 que o Erster Mai ficou mais forte na cidade. Um desses grupos de esquerda virou um carro de polícia, aí a polícia descontou com gás de pimenta na galera que tava lá, mesmo os que nem sabiam o que tava acontecendo. Eles ficaram putos e começaram a criar barricadas com carros e tacar fogo em tudo. Isso atraiu ainda mais gente pras ruas, que ficaram cheias de barricadas pegando fogo, defendidas por manifestantes que tacavam pedras na polícia. Até os caminhões dos bombeiros que tentavam chegar perto eram atacados. As lojas foram saqueadas e muita gente passou horas batendo nas barras de metal da estação de metrô Görlitzer Bahnhof pra fazer barulho. Isso durou umas dez horas, quando os manifestantes começaram a ficar bêbados e cansados, e só assim a polícia começou a dispersar todo mundo com caminhões de água.

Esse conflito entre policiais e manifestantes marcou de vez a popularidade do primeiro dia de Maio como um dia para ir às ruas se manifestar, queimar carros e quebras vitrines de lojas. Isso durou um tempão, até que em 2003 a prefeitura teve uma boa ideia: se não pode vence-los, junte-se a eles. O governo começou, a financiar anualmente ali mesmo em Kreuzberg o MyFest, um festival de rua com vários shows gratuitos. Isso fez com que o bairro atraísse não só outro tipo de gente, sem intenções violentas, mas também trouxe uma maneira mais positiva e criativa de se expressar nesse dia.

Até hoje ainda existem várias manifestações e passeatas. A maior delas é a dos nazistas, que pedem por “uma Alemanha para alemães”, normalmente usando preto, cobertos por bonés e óculos escuros. Por onde passam, uma multidão vai atrás querendo bater neles. A polícia vai no meio, servindo de corrente protetora para os nazistas. Nós acabamos não vendo nenhuma manifestação no dia, nem sei como foi esse ano quanto a isso. O que nós vimos foram várias e várias ruas lotadas de gente bebendo, aproveitando os shows, ouvindo música e dançando como se não houvesse dia 2.

É bem esse clima de festa que sentimos no nosso May Day. Os palcos tocavam músicas qua iam de techno, rock e rap a música turca, cigana e hardrock. As ruas cheias de barraquinhas de comidas de vários países, com famílias inteiras – especialmente turcas – vendendo suas especialidades. As praças lotadas de gente conversando, fazendo seu churrasco e bebendo. DJs por todos os lados, nos restaurantes, nas esquinas, nas janelas, nos parques.

O May Day em Berlim é um ótimo dia para entender melhor o que significa essa vontade de quem mora na cidade de ocupar as ruas e aproveitar cada canto que ela tem a oferecer. Caso você venha pra cá nessa época, o que achamos melhor foi descer na Görlitzer Bahnhof e, de lá, andar pelas ruas aproveitando tudo que vai acontecendo do Görlitzer Park (lotado!) até a Oranienplatz, torcendo para o sol dar um oi, mas se não der, tudo bem, que importa é que você Tanz in den Mai.

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