A libertação de ninguém se importar

Essa é uma lembrança de algo que acontecia na minha adolescência que só renasceu na minha memória quando cheguei aqui em Berlim.

Quando eu era adolescente, lá pelos 16 anos, descolori a metade de cima do meu cabelo até ele ficar quase branco. Fiquei com ele assim por uns três anos e depois pintei inteiro de ruivo. Isso significa que, com o cabelo bicolor, eu ia no Hangar, bebia um monte, fiz várias besteiras, dava mosh, viajava sozinha e ia no JUCA, mas também significa que, com o cabelo de duas cores, eu me formei na escola, entrei na faculdade e estagiei em pelo menos 3 lugares diferentes. Uma vida normal.

E, nesses três anos, mesmo ainda sendo tão nova, as pessoas sempre me perguntavam “E aí, você não vai crescer nunca não?” apontando para o meu cabelo. Como se o fato de eu ter um cabelo considerado diferente (ele nem era tão diferente assim, cara) não condizia com a minha vida de adulta de quem sai de casa 7 da manhã e chega às 23h30. E isso me deixava muito puta. Eu lembro de ter respondido questões do tipo “Mas, apesar de meio doidinha, você é bastante responsável, né?” em uma entrevista no RH de uma empresa.

“Bom, se eu tenho 17 anos e estou aqui tentando um emprego numa agência de merda só pra ter experiência desde cedo e conseguir me bancar sozinha, acho que sou responsável sim, queridinha.” foi o que eu não respondi.

E esse questionamento sobre minha maturidade aconteceu em vários momentos diferentes ao longo desses três anos de cabelo loiro e castanho. Com professores na escola e na faculdade, com desconhecidos na rua e até entre meu próprio grupinho de amigos. Não interessa se eu comecei a trabalhar antes de fazer 18 anos ou se eu passei em todas as faculdades que prestei, como eu ia ser responsável tendo esse cabelo?

E é aí que entra uma das minhas primeiras impressões sobre Berlim.

Muito antes de vir pra cá, no meio da minha pré adolescência, eu sonhava em morar em Berlim e ter todas as tatuagens e cores de cabelo do mundo. Nos intervalos entre ir para a escola e tentar convencer a minha mãe sobre pintar meu cabelo de azul, eu sonhava com um lugar que não era bizarro ser estranho. Na minha cabeça adolescente, você podia ser o que quiser em Berlim. E você pode mesmo.

Aqui, uma mulher andando de moicano levantado e jaqueta de couro é normal. Se ela estiver dando a mão para uma criança também de moicano, vestindo uma jaquetinha de couro cheia de tachas, é ainda mais legal normal. Um cara com tatuagens até o pescoço empurrando um carrinho de bebe é super normal. Ninguém nem olha. Uma mulher que trabalha na prefeitura e tem cinco piercings no rosto é só mais uma funcionária. Aqui ninguém vai duvidar da sua maturidade ou comprometimento por causa da sua aparência, seja pelo seu cabelo ou pelas suas roupas. Você pode ter 60 anos, cabelo azul e usar um vestido longo estampado com ursinhos que ninguém vai questionar sua capacidade de ensinar geografia na escolinha.

E essa é grande parte da beleza de Berlim: você não precisa se esforçar para agradar ninguém, é só ser você mesmo.

E, mesmo que talvez não seja literalmente da forma que eu enxergo e descrevo aqui, sinto uma libertação enorme dessa besteira de achar que você precisa “ser normal” quando crescer. Não tem problema nenhum ter 20, 30, 50 ou 80 anos e pegar seu netinho na porta da escola com sua saia de renda e de batom roxo. Tudo bem trabalhar, ter filhos, fazer compras no supermercado, assistir ao jogo com a família, buscar o sobrinho na escola e ser gótico. Ou todo tatuado. Ou só diferente da maioria. Tá tudo bem.

Foi aqui que eu perdi a conta de quantas vezes desci para passear com a Lisa e o Luca usando meu pijama do Cookie Monster. Tem liberdade maior que essa na vida?

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