O olhar de turista no cotidiano

Não faz muito tempo que mudamos de São Paulo para nenhum e todos os lugares ao mesmo tempo. Como ainda não temos planos de morar por um longo período em nenhum lugar, nossa ideia é passar temporadas em algumas cidades e começamos aqui por Berlim. Assim, conseguimos aproveitar a vida dos locais, aprender muito com a cultura nova e criar algumas raízes, além de curtirmos tudo também como turistas.

Isso vem mexendo bastante com minha percepção de mundo. Como estamos morando e, ao mesmo tempo, viajando por Berlim, acabamos olhando para muitas coisas ao nosso redor com aquela visão crua de um viajante. As particularidades da cidade são impressionantes, as manias dos alemães são curiosas, você perde horas analisando as nuances de verde das árvores simplesmente porque sim.

Às vezes eu me pego bravíssima com alguma coisa que não funciona, uma discussão, a falta de educação de alguém ou por, sei lá, terem roubado nossas bicicletas e não termos grana para comprar outras idênticas. Qualquer problema do dia a dia mesmo. E do nada me vem aquele choque de “Epa, pera aí, não é pra tanto. Olhe ao seu redor”. Nossa vida aqui não é um conto de fadas como muita gente acha. Pagamos nossas contas, precisamos de trabalho, temos que nos virar totalmente sozinhos e temos as responsabilidades de uma vida comum em um país que mal falamos a língua. A vida aqui não é fácil, como não é em qualquer outro lugar do mundo. Assim como não é exclusividade daqui a possibilidade de parar, respirar fundo e pensar “Epa, pera aí, não é pra tanto”.

Aqui mesmo em Berlim, quantas pessoas vivem ao meu redor e não param para prestar atenção em tudo que eu enxergo hoje? Elas estão tão acostumados que sequer notam, igual eu estava em São Paulo. Até fizemos isso no #SPporPaulistanos, mas aqui falo da nossa visão cotidiana. Me questiono como seria eu, Debora, viajando pela minha cidade todos os dias e passando pelo bairro que eu nasci e cresci. Eu fotografaria a pracinha na frente da igreja, passaria na mecânica toda semana para ver qual é o carro histórico que eles estão arrumando dessa vez, prestaria mais atenção naquele beco e nos grafites que compõe suas paredes. Eu, como viajante, olharia mais para a cidade e menos para as minhas obrigações, mesmo que elas ainda existissem.

Ontem, como todas as tardes, levei o Luca para treinar na praça em frente a nossa casa, mas aproveitei para sair com a câmera e fotografar algumas coisas que vejo só dando uma volta pelos arredores de onde vivemos hoje. Nós adoramos tirar aquelas fotos lindas nos lugares mais incríveis que passamos, mas no fim, a memória mais forte e a maior saudade daqui da Alemanha será do nosso bairro mesmo, a extensão da nossa primeira casa juntos. Essas são algumas das coisas que mais vi nos últimos três meses e que ainda me deixam apaixonada.


O exercício de olhar com olhos de turista para o seu próprio bairro é muito, muito gostoso. Eu sei que pode parecer um pouco mais fácil quando você acabou de mudar para uma cidade nova, mas queria que vocês tentassem, nem que fosse um pouquinho só, pela janela de casa mesmo. É um hábito que quero tentar lembrar de fazer em qualquer lugar que eu vá. Isso me fez enxergar alguns detalhes que passaram despercebidos e me colocou com os pés nos chão. O mais importante de tudo, é que me lembrou de agradecer um pouquinho mais por estar aqui, exatamente onde eu estou, onde quer que isso seja. E pode valer pra você também. :)

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