Quero viver até o último dia da minha vida

Não lembro quem me chamou a atenção para a letra de Vienna, do Billy Joel. Ela fala sobre essas vidas corridas que vivemos, sobre querermos completar tudo o quanto antes e como, no fim, essa urgência é muito relativa. Porque Viena nos espera.

A história é mais ou menos a seguinte:
O senhor Joel foi pra Viena visitar o pai. Enquanto passeava por lá, encontra uma senhora ~de uns 90 anos~ varrendo a rua. Sua primeira reação é “Mas que absurdo! Como fazem isso com uma velhinha?”. No que o pai dele responde: “Absurdo nada. Ela tem um trabalho, se sente útil. Ela está cuidando da rua, não sendo colocada de lado como uma inválida.”

Foi assim que ele percebeu que os americanos – assim como nós, brasileiros – desvalorizam muito os idosos, os tratando como alguém que só está a espera da morte chegar, não alguém que ainda tem sonhos, vontades, que pensa e quer continuar produzindo. Alguém útil para si mesmo e para a sociedade. E, pensando que a vida pode ser vivida de verdade até o fim dos nossos dias, não é preciso apressar as coisas e fazer tudo antes dos seus 50, 40, 30 anos. Que mesmo depois desses grandes marcos da idade ainda existe muita coisa pela frente. Afinal, Viena espera por todos nós. Não é a toa que Billy Joel fala dessa música como “uma celebração à importância da vida em todas as idades”. Isso lá em 1977.

Corta a cena. Quase quarenta anos se passaram e continuamos tratando a velhice da mesma forma. Nos cansamos de ouvir “Mas ela não tem mais idade pra isso.”, “Esse velho tá louco em fazer isso!”, “Essa senhora aí acha que tem metade da idade.” quando, no fim, deveríamos é nos orgulhar desses senhores e senhoras que, mesmo ouvindo essas besteiras de gente mais jovem até hoje, ainda estão vivendo, curtindo e aproveitando sua vida, como todos nós deveríamos fazer. Devemos ficar felizes em vermos como é possível sair de casa, aprender, correr atrás dos seus sonhos, conhecer novas pessoas, viajar, trabalhar e fazer algo pela primeira vez, independentemente da idade. Afinal, se temos uma certeza na vida, é que todos nós chegaremos nessa época se tivermos sorte. E o que nós deveríamos querer mesmo é aproveitar até nossos últimos dias.

Esse é um negócio que temos aprendido bastante aqui na Europa: você pode – e deve! – viver depois que envelhece. Em Berlim, vimos um milhão de senhores e senhoras muito mais em forma do que nós, todos com as coxas definidas em cima de suas bicicletas. Vimos gente de 80 anos trabalhando, na frente do bar tomando cerveja, de pé no metrô porque quer, no parque pegando um sol ou pelada no lago. Vimos casais de velhinhos de mãos dadas descobrindo os mesmos cantinhos que a gente nas cidades do Sul da Alemanha. Vimos bandas inteiras de senhores com mais de 70 anos tocando nas ruas de Praga. Vimos até nos hostels. Encontramos gente viva, ativa, curtindo sua época e seus hobbies.

Em Barcelona, temos notado que não é muito diferente. Ainda não vimos muitos velhinhos em cima das bicicletas como em Berlim, mas o que tem deles andando pela cidade com suas bengalas, guarda-chuvas e com um sorrisão estampado na cara não dá nem pra contar. Eles estão nas mesas de fora do bar tomando uma taça de vinho, recolhendo o lixo de madrugada, recepcionando hospedes em hotéis, viajando, conversando alto, tendo primeiros encontros e rindo no restaurante. Estão vivendo. Porque, afinal, o que é viver, se não aproveitar as experiências que aparecem na nossa frente?

Nessas horas eu só consigo lembrar o quanto minha bisavó, que, mesmo aos 90 anos, nunca recusava um passeio, ia gostar de viver por aqui. Não sei por onde eu vou passar nessa vida, mas envelhecer na Europa me parece um bom caminho. Por que viver 50 anos se podemos viver 100? Vamos nos manter vivos da melhor forma possível: vivendo.

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