E o medo de correr atrás dos nossos sonhos?

Quando decidimos ir morar uma temporada em cada país do mundo por tempo indeterminado, levando dois cachorros e todos os nossos pertences, ouvimos pelo menos 30 motivos diferentes do porque “isso nunca vai dar certo”. Depois de muito refletir, desistir, ter medo, passar noites em claro, fazer contas, traças e apagar planos, aqui estamos nós. E hoje ouvimos pessoas dizendo que morrem de vontade, mas não tem coragem de fazer o que fazemos.

Estamos aqui, sim, mas não sem vários medos e erros pelo caminho. Durante nosso processo tiveram centenas de oportunidades das coisas darem errado. Muitas já deram e muitas outras ainda vão dar. É a vida, né? Um exemplo desesperador sobre isso é que eu errei a documentação dos meus cachorros não só uma, mas duas vezes antes de conseguir fazer tudo certo para mudar para Berlim. Hoje eu só sei todos os passos de trás pra frente porque tive que entender o que aconteceu, como resolver e o que mais poderia rolar. Foram erros contornáveis, mas que me fizeram tremer. Deu medo pra caramba. No fim, o medo mesmo era de que virar uma nômade digital carregando dois cachorros era impossível e eu só estava dando com cabeça na parede.

O que entendemos mais pra frente, é que esse negativismo de só conseguir pensar nas formas que alguma coisa pode dar errado – e muitas realmente vão – é só uma forma de defesa da nossa mente. Desistir de tentar só por achar que algo vai dar errado é uma forma de se proteger do que você não conhece e, no fundo, morre de medo. É, basicamente, fugir.

E aí surge o medo falando mais alto, dizendo que o seu sonho é impossível. E não é. Mas essa pontinha de medo vai estar lá, constantemente, dizendo que é impossível sim, que você jamais vai conseguir e é melhor parar de ser tão saidinha. Que, caso você chegue bem perto, alguma coisa vai dar errado em algum momento. Pode esperar. E a cada vez que você correr atrás de alguma coisa, quanto mais próximo chegar dela, mais medo vai ter. E vai ter que lutar ainda mais contra essa sensação.

Nas duas vezes que mudamos de país, começando por Berlim e agora em Barcelona, o meu primeiro impacto nas duas cidades foram duas grandes merdas.

Em Berlim, estávamos de carro, não tinha nenhuma vaga perto do nosso prédio e tive que ficar quase meia hora com 6 malas – duas de mão e 4 de bagagem –, 2 mochilas, 2 caixas de transporte sem rodinhas e 2 cachorros estressados na mão, esperando o Fê estacionar, para conseguirmos pegar as chaves e levar as coisas para casa. Ao invés de ficar lá olhando para o nada, comecei a levar as coisas para a frente do prédio como se estivesse brincando de “Escravos de Jó”. Arrastei uma mala até uns 3 passos ao lado, voltei, peguei outra mala, levei até o mesmo ponto, e fui fazendo isso com cada um dos nossos 8 pertences pelos 20 metros até a nossa casa com a Lisa e o Luca na mão. Várias pessoas passaram por mim naquela noite – é, era noite – e nenhuma sequer olhou duas vezes para me oferecer ajuda.

Em Barcelona, viemos de taxi até nosso bairro. Chegando na rua ao lado, há uns 150 metros da nossa casa, a taxista diz que o carro dela não consegue entrar na nossa rua porque ele é muito largo e a rua estreita. Além de pagarmos um valor ridículamente caro para transportar os cachorros e as 3 malas grandes, a mulher ainda não deixou a gente na porta da nossa casa mesmo cheios de bagagens. Ok, né? Se são regras, são regras. Tiramos todos os nossos pertences do carro super rápido, porque ele já estava em uma rua estreita, e o taxi saiu correndo. O Fê foi encontrar nossa casa para retirar a chave enquanto eu fiquei com tudo na rua. Nem dois minutos depois, sai um caminhão passando pela ruazinha que ela disse que o carrinho dela não cabia. UM CAMINHÃO. E lá fico eu, de novo, sozinha com todos os nossos pertences e cachorros no meio da rua pelos próximos 20 minutos. A única diferença é que dessa vez a rua era cheia de turistas que não param de olhar pra mim como se eu fosse louca por ter tantas malas e coisas e bichos. Pra sair um pouco do meio da calçada e fazer alguma coisa com aquela situação ridícula, começo a colocar nossos pertences encostados na parede logo ao lado de uma loja no mesmo esquema escravos de jó. Quando estou quase acabando, chega a dona da loja, olha tudo aquilo com uma cara nada amigável e me dá um aviso em tom de bronca, dizendo que eu não posso atrapalhar a vitrine dela com as malas. Ah, mas cê jura? Obrigada, moça.

Sabe quando você quer fechar os olhos, dar um berro e de repente tudo estar resolvido como num filme? Então: não rola. Infelizmente. Esses dois momentos, especificamente, foram as primeiras vezes que eu pensei “Puta merda, o que eu tô fazendo da minha vida?” em cada cidade que moramos até agora. São momentos que você está cansado, comeu mal, dormiu pouco, está estressado e ansioso, não sabe o que esperar de um país novo, não sabe se é seguro estar ali e mil outros pontos que você não quer nem lembrar. Mas está lá, tentando sorrir quando alguém elogia o seu cachorro que acabou de surtar com outro cachorro e fica mostrando foto dos bichos dele pelo celular enquanto você só queria tirar suas malas do meio da rua e tomar um banho quente.

Só que, apesar de todo o medo que você sente dos pés a cabeça, ininterruptamente nos últimos dias, lá está você: na rua ao lado da sua casa nova, sorrindo para um estranho e torcendo pra tudo aquilo acabar de uma vez – pra, enfim, poder começar logo. E enfrentar medos para correr atrás dos seus sonhos é a coisa mais corajosa que alguém pode fazer na vida.

Não, o medo não vai embora. Nunca. Você é que precisa aprender a conviver com ele e não deixar isso te parar. É preciso sim ter coragem para mudar de país, levar cachorros, largar uma vida para trás a cada 6 meses. Mas a real é que é preciso ter muito mais coragem para correr atrás dos seus sonhos dia após dia, independende de quais eles sejam. Aprender a desenhar, conhecer a China, mudar de profissão ou correr uma maratona. Tanto faz. O mais importante é não deixar o medo te parar antes mesmo de você começar.

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