Como eu me tornei freelancer

O despertador toca às 8h da manhã. De novo às 8h10. E de novo às 8h20. Enquanto tento me desvencilhar dos cobertores, dos braços do meu namorado e das oito patas dos meus cachorros, começo a criar coragem para acordar. Lavar o rosto, meditar, tomar café da manhã e checar as tarefas do dia.

Muita gente pergunta aqui no blog como nós viramos freelancers e como isso funciona, porque parece uma solução ótima para quem quer viajar o mundo e conseguir se sustentar ao mesmo tempo – e realmente pode ser. Nos perguntam como fazer para “chegar lá” quando nós mesmos ainda nem sabemos onde é o lá – e estamos bem longe de chegar nele. Quase todos os dias recebemos mensagens dizendo como deve ser legal trabalhar de qualquer lugar e pedindo dicas para fazer exatamente a mesma coisa que nós fazemos. Mas isso, é claro, não funciona dessa forma.

Há três anos eu trabalhava das 10 às 19h em uma empresa. Achava meu trabalho legal e ganhava bem, mas comecei a mandar currículos para vagas de freelancer porque queria ganhar mais. Sem indicação e sem conhecer ninguém, consegui meu primeiro trabalho sozinha. Ficava na empresa 9h por dia e usava o tempo livre para manter o freela, carregando os dois juntos. Depois de alguns meses nessa rotina, surgiu mais um trabalho (esse, por indicação) e de repente me vi ganhando melhor como freelancer do que no local oficial, trabalhando menos e com projetos mais interessantes nas mãos. A decisão praticamente se formou na minha frente como um holograma. Foi assim, com toda a segurança e de forma bem pé no chão, que larguei meu trabalho oficial para virar freelancer.

Não teve “largar tudo para ser feliz”. Não teve “abandonar meu trabalho para tentar a sorte num projeto pessoal”. Não teve “jogar tudo para o alto para fazer só o que eu amo”. Para mim a transição foi como qualquer mudança de um trabalho para o outro, mas nesse caso era para ser freelancer.

Meu primeiro desafio foi o home office. Trabalhar de casa, definitivamente, não é para qualquer um. Até hoje, dependendo do dia e do lugar em que estamos vivendo, eu me questiono se isso é pra mim. O que muita gente enxerga como positivo também pode ser bem negativo. Fazer sua própria comida leva tempo. Ter os cachorros por perto é maravilhoso, mas eles vão querer sua atenção o-tem-po in-tei-ro. Ter a família por perto vai te distrair. Muito. Fazer seus próprios horários é ótimo na segunda de manhã e péssimo no sábado a noite. Trabalhar sozinha ajuda na concentração e dificulta na hora de debater ideias espontaneamente. A produtividade só aumenta quando ~todos os chakras da casa~ estão alinhados.

Mas também vem com a possibilidade de trocar a escrivaninha pela beira da praia, um espaço de coworking, um café com ar condicionado ou, se quiser, até ficar dentro do próprio cliente que você presta serviço. O que importa é a concentração que precisa vir.

Ouvindo assim, parece ser uma boa ideia em todos os aspectos. Só que essa escolha tem mil outros lados.

Depois que comecei oficialmente a ser autônoma, descobri que trabalhar sozinha te faz uma autodidata por obrigação. É preciso aprender a abrir uma empresa, lidar com a conta jurídica, ter paciência com o banco e o contador, decidir quais valores cobrar, criar propostas, correr atrás de clientes, desenvolver uma estratégia de divulgação, criar um planejamento para o futuro, negociar, fazer cotações, emitir notas fiscais, pagar seus impostos mensalmente, verificar pagamentos, cobrar clientes, anotar gastos, controlar ganhos e fazer e refazer as finanças para manter tudo em dia e conseguir pagar as contas no fim do mês. Isso, é claro, além de lidar com todos os seus problemas do trabalho ou ligados a casa, alimentação, transporte, internet, possíveis fornecedores, seguro de saúde etc.

Muita gente acha que a vida de freelancer é feita de benefícios e só descobre todo esse trabalho extra quando entra de cabeça nela. Foi o que aconteceu comigo. Sim, é extremamente recompensador ganhar de acordo com o quanto você trabalha, poder ser produtivo o dia todo de pijama, almoçar em casa e ter a possibilidade de fazer isso em qualquer lugar do mundo. E eu me aproveito muito bem dessas oportunidades. Mas ter que lidar com essa quantidade absurda de coisas além do seu próprio trabalho é extremamente desgastante. Ainda mais para quem mora em outro país e, definitivamente, não tem como bancar um assistente de vida para resolver todos esses tipos de coisas.

Mas, gostando ou não, essa organização toda é uma parte importantíssima de qualquer freelancer. Já tive meses que ganhei muito dinheiro, seguidos de meses que nem se eu juntasse meu salário com o do Fê daria para pagar metade do aluguel. Tem meses que você recebe propostas fechadas de trabalhos incríveis, em outros faz várias propostas que não dão nenhum resultado. Essa semana, por exemplo, entregamos dois trabalhos bem legais, mas uma proposta quase fechada foi cancelada. Acontece. E você precisa de uma organização enorme para passar pelos melhores e piores meses com certa estabilidade.

São preocupações que você nunca precisou lidar antes, faltam pessoas para te ajudar nisso tudo, é muito fácil de sair perdendo quando você ainda não sabe muito bem o que está fazendo, dá muita dor de cabeça e te faz pensar 24 horas por dia em trabalho ou nas outras obrigações que o cercam. Às vezes, eu e o Fê nos pegamos conversando sobre como deve ser legal sair às 19h da sexta feira de um trabalho e não ter que se preocupar com absolutamente nada até às 8h da manhã da segunda. Só curtir o fim de semana. Relaxar na piscina sem ter seu email pulando na tela do celular enquanto você fotografa sua água de coco. Essa é a primeira pergunta que você precisa fazer antes de empreender, virar freelancer ou começar qualquer trabalho autônomo: para você, essa troca é justa?

Ser freelancer é, sim, uma forma bem legal de trabalhar. Inclusive, com a tecnologia, eu realmente acho que a tendência é termos cada vez mais e mais pessoas trabalhando não para empresas, mas para si mesmas. Criando suas próprias formas de ganhar dinheiro enquanto vivem a vida que querem. Inventando seu trabalho dos sonhos. Fazendo uma reunião no sofá da sua sala em São Paulo com um cliente da Dinamarca que encontrou – e amou – seu trabalho. Estamos vivendo na primeira época que todas essas possibilidades começam a ficar realmente viáveis. Isso não é maravilhoso?

Hoje, eu tenho sorte de ter o meu namorado para dividir as obrigações, conversas e a vida nessa jornada de empresa própria, e sou extremamente feliz com a minha escolha de virar freelancer. Mas não tenho a menor ideia se essa forma de trabalho vai ser a minha favorita daqui 10 anos.

Mas, de novo, esse tipo de trabalho não foi feito para todo mundo. Às vezes, ser freelancer é muito instável para o tipo de vida que você quer levar. Ou a sua área jamais permitiria que você trabalhasse fora do escritório. Ou qualquer outra razão. Mas se você realmente quer alguma coisa que a flexibilidade de estar fora de um trabalho “tradicional” pode te dar, é hora de parar e analisar as possibilidades ao seu redor. Pular para uma área mais flexível? Encontrar um meio termo entre o trabalho que você faz hoje e o que você sonha em fazer? Começar devagar, procurando trabalhos menores sem largar seu principal emprego? Procurar empresas que queiram contratar alguém full time que não precise trabalhar dentro dela? Tudo isso depende muito de quem você é, sua área de atuação, seus sonhos e o quanto você quer que eles se tornem realidade.

Eu realmente acredito que é possível sim encontrar (ou criar) um trabalho que junte tudo que você é e tudo que você quer ser. Mas essa é uma ideia tão íntima, que vai de acordo com seus princípios, sonhos, medos e vontades, que não dá pra se basear na história de uma pessoa e definir aquilo como seu objetivo. Se inspirar com outras histórias é, sim, uma das maiores formas de você sonhar com um emprego ideal que vai suprir todos os seus objetivos profissionais e pessoais, mas a escolha de que caminho vai seguir só pode ser determinados por você. Não adianta pensar que “é impossível” e pronto. Lembra quando eu falei de medo por aqui? Se arrisque a, pelo menos, pensar em alternativas. Vai que a oportunidade de uma delas aparece bem na sua frente e você não enxerga porque nunca pensou sobre seu trabalho dos sonhos antes?

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