A próxima estação de São Paulo

São Paulo, começo a escrever esse post aqui para seu aniversário pelo celular e de pé no metrô, 18h. Não consegui entrar rápido o suficiente para pegar os últimos lugares vagos, mas tudo bem. Eu não me importo de ir encostado aqui no canto. O pior mesmo é não ter dado a sorte de pegar um trem com ar-condicionado. Pensei em sair, mas as portas se fecham e Santana começa a ficar pra trás.

É engraçado, São Paulo, como vivemos tantos anos por aqui sem te conhecer direito, né? Antes de começar a namorar minha beautiful girl from the North, cruzar as pontes era fazer uma viagem. Imagina? “Próxima estação: Carandiru.” Passar pelo Campo de Marte, pela Cruzeiro do Sul, Engenheiro, o que significa Imirim? Apesar de sempre me orgulhar de ser um explorador das suas ruas, ficava preso naqueles bairros em volta de casa, do centro pra baixo, da Saúde pra cima. Leste e Oeste? Vale a Mooca? Continuo sem conhecer.

Duvido que exista uma pessoa que possa dizer que conhece São Paulo como a palma de sua mão. “Próxima estação: Portuguesa-Tietê” Sua imensidão assusta. Suas cores, suas ruas, seus dias, suas noites, sua correria, seu calor, seu trânsito, aquele cara me olhando estranho do outro lado do vagão. Tudo em São Paulo intimida. Acho que não é uma cidade fácil de começar, que precisa ser conquistada aos poucos. “Próxima estação: Armênia.” E, para variar, eu estou atrasado. Era para chegar às 18h, não estar no metrô a essa hora. Mas ah, São Paulo, eu sempre soube que você não é daquelas cidades de amor a primeira vista, que você se apaixona já lá do avião. Você precisa de tempo, coisa que quem mora aqui nunca tem.

Por experiência própria, sei que relógio de paulistano passa mais rápido. E São Paulo deve ser uma das únicas cidades do mundo que acompanha esse tempo louco, não? Você não sabe se chove, se faz sol, se quase vai nevar um pouquinho no fim da noite. Esse tempo louco em que só mais 5 minutinhos viram uma hora, em que a gente pode sair pra jantar 23h da noite com a certeza de que vai achar um lugar aberto. Só você, São Paulo, para acompanhar minhas horas. Ou eu que acompanho as suas?

Vambora! Vambora! Olha a hora! “Próxima estação: Tiradentes.” E o vagão começa a lotar, as pessoas começam a se apertar em um nível de intimidade que eu mal tenho com meus melhores amigos. Mas não se preocupe, São Paulo, não vão ser essas gotas de suor passando pelas minhas costas, nem o cheiro estranho saindo do cara ao lado que vão me impedir de escrever esse texto para o seu aniversário.

“Próxima estação: Luz. Desembarque pelo lado direito do trem.” Entram duas mulheres falando chinês – querem apostar que elas vão descer na Liberdade? –, no meio de uma outra porção de gente. Encostado na outra porta tem um garoto de uns 12 anos sozinho, com uniforme da escola. Ali na frente, um engravatado com mochila de academia nas mãos. Do lado dele, um grupo de vendedoras de alguma loja de produtos de beleza. Um grupo de caras discutem futebol, mas anda tendo jogo esses dias? Um casal de velhinhos sentado de mãos dadas, um cara que deve ter a minha idade com cabelo comprido e roupas pretas como se não houvesse 35ºC lá fora, logo ao lado de uma mãe com uma criança no colo. Nos seus 30, nos seus 50, magro, feio, velha, gordo, branco, novo, negra, bonito, cansada, suado, careca. Quase todo mundo como eu: com a cara no celular. “Próxima estação: São Bento.” A mulher do meu lado dá lugar a uma senhora careca negra com uma cicatriz em forma de cruz no braço, cheia de sacolas da 25. Ela abre um livro que, pelo que consegui ler nas minhas espiadas – quem nunca, né? –, era sobre cavaleiros e magos, com borda medieval em cada página e tudo.

A sua beleza está nessa mistura toda que você criou, São Paulo. Por aqui você encontra gente de todos os países do mundo. Japoneses e italianos, então, nem se fala. Por aqui você encontra gente de todas religiões, gente que acredita em diferentes teorias, gente com tudo que é tipo de sonho, gente que cria essa São Paulo dos buffets a quilo com sushi do lado do estrogonofe, das coxinhas de feijoada, dos churros de metro de frango com catupiry, dos temakis de salsicha com batata palha, das paletas mexicanas Romeu e Julieta e de várias coisas que são realmente legais. “Próxima estação: Sé. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.” Essa cidade de tantas misturas, de tantas pessoas que vem, de tanta gente que vai, que parece mesmo uma estação. Cada vez mais cheia, como esse vagão em que estou. Você é daquelas que muda o tempo todo, São Paulo.

Você é tantas coisas que é muito fácil te amar e te odiar. Tudo ao mesmo tempo e agora. Não existe amor em SP só para aqueles que nem tentam te amar, que não caem de cabeça. Amor, por aqui, é imprevisível como você e eu. “Próxima estação: Liberdade.” E lá se vão as chinesas. Em uma cidade com quase doze milhões de habitantes, amor é questão de escolha. E opção é o que não falta em São Paulo. São 20 mil bares, 15 mil restaurantes, um milhão de pizzas por dia e mais de 10 milhões de pãezinhos. Não existe cidade com mais poder de escolha que São Paulo. Balada para judeus canhotos que odeiam salsa? Se existir, vai ser em São Paulo.

É claro que ter opções não quer dizer só algo positivo. Você e eu sabemos bem disso, São Paulo. “Próxima estação: São Joaquim.” Não quero parecer minha mãe falando agora, mas você é uma cidade que poderia ser nota 11 e continua ali, sem passar dos 6. É uma cidade que, por tudo aquilo que sabemos, tem potencial para ser uma das melhores cidades do mundo. Mas até nós mesmos, paulistanos, batemos tanto em você que não existe santo que ajude.

Enquanto essa São Paulo perfeita não vem, o melhor a fazer é trabalhar. Como todo bom paulistano. “Próxima estação: Vergueiro.” E trabalhar é o que São Paulo sempre fez de melhor. É o que o paulistano sempre bateu no peito para se orgulhar. As grandes oportunidades estão todas aqui, se estapeando por um espaço no metrô ou uma vaga para entrar no vagão ao lado.

Eu sei, São Paulo, eu sei que você está longe de ser o melhor lugar do mundo. “Próxima estação: Paraíso.” Se pensarmos nesse calor, no trânsito, na falta de segurança e em todo esse potencial de cidade potência desperdiçado de uma só vez, dá até vontade de chorar, mas é melhor não desperdiçar essa água. Toda essa mistura de talentos, pessoas, culturas e sonhos se amontoa pelas ruas, portas e estações todos os dias, torcendo para que amanhã seja diferente. Para que surja uma luz no fim do túnel do metrô – mesmo sabendo que a luz anda acabando toda noite.

É, São Paulo, você não é uma cidade fácil. E as pessoas também não são fáceis com você. Mas, talvez, o que mais falte por aqui é mesmo a tal da paixão. “Próximas estação: Ana Rosa.” Por isso, o que eu mais desejo no seu aniversário, Sampa – pensou que ia sair sem essa, né? –, é que as pessoas se apaixonem mais por você. Que a gente se apaixone cada vez mais e que encontremos pessoas apaixonadas para cuidarem de você. É só assim, juntos, que podemos mudar e, quem sabe, te transformar em uma cidade melhor que todos nós sabemos que você pode ser.

“Próxima estação: Vila Mariana.” Opa! É aqui que eu desço e já ia esquecendo: parabéns pelos seus 461 anos, obrigado por me fazer crescer e não perca as esperanças, São Paulo, porque eu não perdi as esperanças em você.

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