Tudo dá certo – até dar tudo errado

Para nós, mudar de uma cidade – e, muitas vezes, país – é sempre uma aventura. Já falamos das outras histórias nesse post aqui. Isso acontece porque precisamos transportarmos nossa vida com a gente: tudo que temos está em 3 malas grandes, 2 malas de mão e duas caixas de cachorros. A ida de Córdoba, na Espanha, para Lisboa, em Portugal, foi só um exemplo básico dessa aventura – que você pode ler aqui.

Mas dessa vez a tarefa era fácil: pegar um avião em Lisboa e descer em Berlim. Gente, tá tranquilo, tudo certinho! Essa é fácil. A ideia era sair de Lisboa, conexão de 1h50 em Paris e o voo para Berlim. Vamos chegar lá antes do anoitecer!

“Olha, senhor, 1h50 de conexão não são suficientes para ir com cachorros pela Air France. O mínimo são 2h. Mas podemos mudar seu voo para esse aqui, com conexão de 5h em Paris.” Fazer o quê, né?

Chega o dia, tá tudo certo! Só precisamos chamar um táxi. E, ah, pegar dinheiro! Vai lá pegar, Dé? Foi, voltou, não conseguiu. Magicamente, todos os nossos cartões, de bancos diferentes, pararam de funcionar exatamente no dia da nossa mudança. E os lindos aqui sem um puto no bolso para pegar um táxi até o aeroporto.

Enquanto Debbie tentava pegar dinheiro, eu tava lá fechando as malas enquanto o taxi travava a rua com vários carros buzinando atrás. Nunca vimos tantos carros naquela rua antes na vida. Juro. E vou te dizer que os portugueses não são assim, muito…legais de se ver irritados, não. Depois de descer metade das coisas pelo rapel que eles chamavam de escadas…não coube tudo no taxi. Lógico. Vou chamar outro para a Dé… até eu descobrir que, opa, não tinha dinheiro pra nenhum deles. Só alegria.

Depois de chorar para a dona do apartamento, ela nos emprestou 40 euros com a promessa de que devolveríamos tudo pela internet assim que chegássemos em Berlim. Entrei no táxi e, como era impossível cair um raio na minha cabeça porque estava sol, o celular teve que apitar avisando que meus créditos acabaram e eu não conseguiria mais me comunicar com a Debbie caso algo desse errado.

Nessa altura do campeonato, O QUE MAIS PODERIA DAR ERRADO?, pensei, como um bebê que não conhece nada da vida.

Eu e Lisa chegamos no aeroporto. Debbie e Luca chegaram no seu táxi milionário e uhul! Agora vai, galera! Sem mais drama!

Fomos fazer check-in e descobrimos, da pior maneira possível, que nosso negócio de pesar as malas estava desregulado. Puta que pariu. Demos adeus aos patins da Debbie e, além de nos liberar, a moça da AirFrance ficou com tanta dó da situação que pegou nas nossas mãozinhas e nos ajudou a fazer todo o processo dos cachorros.

Ok! Agora vai! Cachorros estão bem, a gente dentro vôo. Vamos nessa!

Bonjour, Paris. 5 horinhas enrolando no aeroporto com os cães. Mais uma vez, despachamos os cachorros, passamos na Ladurée do aeroporto – o fiadaputa do cartão funciona, mas não faz saques – pra fingir que somos um casal normal e vamos embarcar! “Monsieur, sua mala de mão e sua mochila, juntas, precisam dar 12kg. Só que elas passaram de 20kg. Vai ter que despachar.”

Nunca pesaram nossas mochilas antes na vida, então tomamos na cara com a novidade. Só podia ser hoje. Isso faltando 20 minutos para o voo decolar, nossos cachorros embarcados e a gente surtando que até eles chegariam em Berlim – menos a gente.

Os funcionários foram super rápidos e nos ajudaram com tudo, sempre lembrando que precisávamos correr. E corremos. Chegamos na porta de embarque em pânico, ofegantes… e nosso vôo estava 40 minutos atrasado.
Ah, a vida, essa eterna agulha sendo enfiada embaixo da nossa unha do indicador.

Finalmente embarcamos, voamos – em assentos separados, porque não dava pra esperar nada de legal nesse dia –, chegamos em Berlim, pegamos os cachorros, demos a mão um para o outro e sorrimos. O pior tinha passado e estava tudo bem. Os cachorros viajaram bem, nós chegamos vivos e nem perderam nossas malas. Já era quase meia-noite, mas o dia ainda não tinha acabado, né?

Lotamos um táxi. Como sempre, sem espaço para respirar. A Debbie tão esmagada que não conseguia nem mexer as pernas e os cachorros na mesma caixinha. “Aceita cartão, senhor?” “Ja!” (Ele falava inglês muito mal.) Perfeito! Lá vamos nós para casa, finalmente. Na hora de pagar, a maquininha dele não funcionou (Dessa vez não foi nossa culpa. Acho). Beleza, vamos sacar dinheiro. 5 caixas automáticos depois… nada.

“Tive uma ideia! A dona do apartamento deixou as chaves no bar perto de casa. Vou lá, pego as chaves e peço dinheiro emprestado com eles. Deixo os documentos, os pulmões, sei lá.” Boa! Fui fazer isso enquanto eles descarregavam o carro. Já era meia-noite e meia. Notícia ruim: não poderiam me emprestar o dinheiro. Notícia pior: ninguém deixou nenhuma chave no bar.

Sem dinheiro para pagar o táxi, sem chaves pra entrar em casa e com todas as nossas coisas na rua, na frente do prédio. Deixei a Dé ali enquanto fazia uma caça ao tesouro por um lugar que desse pra sacar dinheiro – e também pelas chaves do apartamento.

Eu juro pra vocês que pensei que o taxista fosse me sequestrar. Eu não tava nada feliz com a situação. Muito menos ele. Quatro caixas eletrônicos, dois postos de gasolina e uma hora e meia depois, ele desistiu. Escreveu um contrato em alemão falando que eu deveria pagar 70 euros (!!!) para ele, no dia seguinte, ao meio dia, e ficou com meu documento. Pelo menos me deixou em casa de novo. Boa pessoa. E sobrevivi para contar a história.

Chego na frente do prédio e a Dé está sentada com os cachorros e uma montanha de coisas. Uma e meia da manhã, 7 graus lá fora e ela usando todos os casacos que conseguiu tirar de dentro das malas. Nessa hora ela já estava pensando em como ligaria para a polícia sem sair da frente do prédio e sem telefone. E como ia explicar o sumiço do seu namorado que foi e levou seus documentos, seu celular, que não sabe seu telefone porque nosso número muda a cada mês e que, não, ela não tem a chave da nossa própria casa e nem sabe onde ela está.

Comecei a perguntar em cada um dos bares ao redor da nossa casa por uma possível chave aguardando seu dono, morrendo de medo de precisarmos, sei lá, dormir na rua. Em um dos bares, peço a senha do wifi. Ele não funciona. “Sempre funcionou!”. Essa noite, não. O barman, com dó da situação toda, oferece seu próprio celular para eu usar como hotspot e conseguir me conectar.

Aí surge a mensagem: no fim, 2h depois que a Debbie e os cachorros estão na porta do prédio igual três idiotas, eu correndo de bar em bar há meia hora, a chave estava ali, com a vizinha da frente do nosso apartamento. E não descobrimos antes porque estávamos sem internet no celular. Tem vezes que a tecnologia aparece só pra cuspir na sua cara mesmo.

Chego no prédio e, ao menos, alguém liberou a porta do térreo para a Debbie, que colocou tudo no hall de entrada e estava lutando tentando arrastar todas as malas, caixas e cachorros cada vez pra mais perto das escadas. Sempre a mesma história.

No fim das contas, chegamos em Berlim sem nossos cartões, com uma dívida de 70 euros para um taxista, outra de 40 pra dona do apartamento anterior, morrendo de fome e, para coroar esse dia dos infernos, nem a internet do apartamento funcionava. Nessa correria toda, a salvação veio dos nossos amigos que fizemos durante nossa primeira temporada por aqui.

Quando reservamos nossas passagens para Berlim, brincamos:

“Olha que chique! Vamos tomar café da manhã em Lisboa, almoçar em Paris e jantar em Berlim.”

No fim das contas, saímos atrasados de Portugal sem comer nem uma torrada, almoçamos um wrap caro e sem graça no Starbucks da França e jantamos pipoca de microondas em Berlim, às 3h da manhã, porque algum antigo hóspede do apartamento tinha deixado para trás. Só glamour.

Mas, como dizem por aí, tudo está bem quando acaba bem.
Apesar dos pesares, e até justamente por causa deles, como é bom estar em (e ter uma) casa. :)

Ah! Se você não tem ideia do que estamos fazendo de novo em Berlim, vem ler esse post aqui!

Comentários