Quando mulheres se atrevem a serem livres

Nesses dias rolou na internet uma grande comoção depois que duas viajantes argentinas foram assassinadas no Equador. Elas saíram juntas de Mendoza – um dos lugares que conheci viajando sozinha e tirei a foto do topo do post – e foram viajar pela América do Sul. No Equador, foram assaltadas e perderam tudo. Pediram ajuda. E então foram abusadas, violentadas e assassinadas por dois homens.

A história já seria horrível por si só dessa forma.

Mas ela foi muito mais além: a culpa, aos olhos da mídia e do público, não é dos assassinos. Não é de dois homens que mataram duas mulheres com um pedaço de madeira. A culpa é delas. Que não se protegeram o suficiente. Que estavam usando uma roupa X ou Y. Que gostavam de – olha só que absurdo – dançar! Que pediram ajuda para dois homens. Que não estavam em casa, rezando o terço. Que saíram de suas casas na Argentina para viajar pela América do Sul sozinhas.

Como assim, sozinhas?

Porque duas mulheres, juntas, aparentemente não valem mais do que um homem sequer. Porque mulher, na companhia de outra mulher, se atrevendo a viajar por aí, só pode estar pedindo para ser estuprada. E assassinada.

Esses e outros absurdos não estão apenas na história de Maria José e Marina. Estão em discursos na internet. Estão nas conversas de ônibus. Estão nas piadinhas do escritório. Estão dentro da nossa própria casa.

Todas essas formas de reforçar o machismo são maneiras diferentes de dizer que, no fim, mulher que se atreve a sair de baixo das asas de um homem merece mesmo morrer. Porque se atreveu a ser livre.

Nós somos as maiores provedoras de lares brasileiros. Somos a maioria nas universidades. Lutamos pela igualdade e por nossos direitos de ir e vir há anos. Mas, até hoje, ainda tem gente que insiste em nos chamar de sexo frágil. Temos nosso trabalho desvalorizado, nosso corpo julgado e nossas ideias desrespeitadas. E, mesmo assim, continuamos lutando todos os dias. Nós somos independentes, somos fortes e, principalmente, somos nossas. E de mais ninguém.

Na nossa vida, todos os dias são dias de brigar por respeito. Nas ruas, no transporte público, no trabalho, na internet, nos restaurantes e até mesmo dentro de casa. Continuamos lutando para que nossas vozes sejam, finalmente, ouvidas. Nós sofremos violência doméstica, abusos verbais, pensamos dez vezes na roupa que iremos usar para tentar nos proteger, em vão, de um possível ataque sexual de alguém que acha que nosso corpo é deles. Não é todo dia que conseguimos chegar em casa sãs e salvas. Muitas vezes sequer conseguimos andar na rua sem medo. E nem dentro de casa estamos seguras.

E ainda tem gente que, em pleno dia 8 de Março, quer me dar flores na porta de lojas de roupa? Quer exaltar o quanto eu sou delicada? Meiga? Linda? Cuidadosa? Doce? Eu posso até ser qualquer um desses ditos adjetivos – ou não ser nenhum deles – mas, muito acima disso, eu sou uma lutadora. Eu sou uma guerreira. E é exatamente sobre isso que se trata o Dia da Mulher.

Hoje é um dia para lembrarmos o quanto lutamos para chegar até aqui. E o quanto ainda precisamos lutar diariamente para que respeitem nossos direitos. Para que possamos viajar sozinhas sem medo. Para que possamos amar nosso corpo, nossas ideias e nossas descobertas. Hoje é um dia para lembrar como enfrentamos o mundo todos os dias. Sozinhas. Completas. Uma ao lado da outra.

Eu não sou apenas a mulher de alguém. Ou a mãe de alguém. Ou algo a ser admirado, elogiado, julgado, apedrejado. Eu sou um ser humano único. Completo. Eu sou livre.

E, caso alguém por aí ainda não tenha percebido, não adianta lutar contra o feminismo. Não adianta reclamar da igualdade de sexos. Porque, aqui desse lado, nós vamos continuar lutando. Cada vez mais unidas. Cada vez mais fortes. Cada vez mais poderosas. Cada vez mais nós mesmas.

Nesse dia 8 de Março, não me dê flores.
Me dê a liberdade de escolher o meu caminho.
Me dê a liberdade de decidir as regras do meu próprio corpo.
Me dê a liberdade de ser livre.
De ser eu.

Nesse Dia da Mulher, a única coisa que nós queremos é igualdade.

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