Quer aprender a desenhar?
Dicas de ilustração por quem vive disso!

Eu sempre quis aprender a desenhar. Quando era bem nova até fiz um curso de desenho, não gostei, e mesmo comprando todas as Revistas Zupi e Computer Arts que meu dinheirinho conseguia bancar antes e durante a faculdade de publicidade, eu nunca segui muito sério com essa ideia de ilustrar, tentando deixar de lado sempre que aparecia e babando pelas coisas que meus amigos faziam no caderno em 10 minutos na sala de aula.

De uns anos pra cá, a vontade de ilustrar voltou. Depois de ter parado de acompanhar todos os blogs de design que eu amava, de jogar todas as minhas revistas de inspiração no lixo, de esquecer qualquer coisa que eu sabia fazer no Photoshop, lá estava eu tentando lembrar o nome daquele blog foda que eu lia todos os dias. Não tenho pretenção nenhuma com a ilustração por enquanto, eu só quero…desenhar. Nem que seja para poder fazer coisas bonitinhas para o blog, fazer umas estampas ou só por simplesmente conseguir expressar uma ideia de outra forma além da escrita – que já me acompanha como única forma de expressão há tempo demais.

Foi por isso que meu #ProjetoCórdoba é focado em ilustração. E, desde então, eu tenho me interessado cada vez mais por esse universo, conversado com profissionais da área, acompanhando tudo mesmo que minha técnica ainda seja totalmente de iniciante.

Como eu sei que tem muita gente por aí que resolveu aprender a ilustrar recentemente – ou sempre quis, mas acabou deixando pra depois por medo, preguiça ou falta de ferramentas –, resolvi conversar com três amigas super talentosas que começaram a ilustrar em diferentes épocas da vida e que isso, hoje, faz parte do seu dia a dia e de suas profissões.

Convidei a Pri Ferrari, do Cadê o meu café?, a Gabriela Namiê, da Barca, e a Raíza Bruscky, que é designer freelancer. Elas possuem estilos totalmente diferentes, cada uma trabalha com uma coisa e elas tem visões bem diferente de ilustração, o que eu achei a parte mais legal dessas conversas!

A Pri sempre desenhou, mas ano passado lançou o Cadê o meu café?, que cresceu e virou quase seu portfólio. Ela é publicitária, mas complementa a renda com ilustração graças às tirinhas.

A Gabi é designer, apaixonada por tipografia e faz uns projetos incríveis para marcas junto com o Jun, seu sócio (e amigo de infância do Fê) pela Barca.

A Rai já nasceu no meio artístico, é filha do Paulo Bruscky, cresceu vendendo desenhos do Cavaleiros do Zodíaco na escola e sempre teve design como primeira opção de graduação.

E como eu também estou nesse processo de aprendizado, mais pra baixo eu dou algumas dicas que estão funcionando pra mim hoje e podem funcionar para você que também está começando. :)

Sua história e o que você sugere

Pri Ferrari

“Quando eu comecei com o Cadê o meu Café, a resposta do pessoal foi super positiva e eu comecei a criar confiança. Comecei também a notar que não importa o que a gente faça, vai ter gente que gosta e vai ter gente que acha problema, que faz questão de gongar.

E aí com o crescimento do Cadê o meu Café, eu comecei a desenhar mais e mais e aquele sonho de trabalhar com ilustração reascendeu. Eu estava mais velha e mais confiante (leia-se: ligando menos para o que as pessoas falam da gente) então foi mais fácil botar a cara no sol, mona.”
Pri Ferrari

Veja muitas referências, observe o que faz uma ilustração ser interessante pra você. Eu lembro que olhava meus ilustradores e designers preferidos e meu sonho era ser eles. As vezes, ainda é.
Mas desenvolver um bom olho pra o que gosta já é metade do caminho andado. Muitas vezes é frustrante ver algo, pensar em uma imagem, e não conseguir fazer ela. Mas essa é a parte mais fácil. Com treino, dicas, tempo… rola! Observar é o principal!”
Gabriela Namie

Gabriela Namie

“Para quem está dando primeiros passos depois de muito tempo afastado do desenho e se familiarizando com criação, estilo simplesmente como forma é a última preocupação. Essa é a hora de experimentar. Podemos ilustrar com tipografia, aquarela, vetores do illustrator, lápis, formas geométricas, colagens, são vários e vários suportes pra explorar. Quando você descobre o que gosta de fazer, qual técnica encanta, o desenvolvimento é natural.

Para começo, acho interessante estudar o básico de profundidade, ângulo, perspectiva, anatomia básica, proporções, e até algo mais específico, como treinar expressões faciais isoladas (imitando outros desenhistas, se desenhando no espelho), ou formas de cachorros . Você está se familiarizando, então busque sempre o mais básico que lhe dê vontade de treinar. Nada de querer, no começo, reproduzir Leonardo da Vinci.”
Raiza Bruscky

e outros truques para aprender

Raíza Bruscky

  • Treine muito! Desenho é muita prática. É tentativa e erro.
  • Tenha sempre um caderninho com você para anotar as ideias.
  • Se você empaca muito no desenho, tente colocar prazo.
    Tipo: tenho 10 minutos para fazer esse desenho. Isso de ajuda a soltar o traço.
  • Tá com medo? Vergonha? Vai assim mesmo. O importante é fazer.”
    Pri Ferrari

“Digamos que você nunca parou pra desenhar depois dos 5 anos, nunca fez nenhum curso, a questão permanece a mesma: vontade, estudo e treino. Saber identificar qual praia NÃO é a sua e deixar as coisas surgirem nas outras.

[Para me inspirar, eu] pesquiso sobre o universo no qual se insere meu objeto. Sento, pego um bloco de papel A3, rabisco qualquer coisa que venha na cabeça. Pesquiso mais (textual ou visual), volto pros rabiscos e vou apurando detalhes. Folheio livros de designers e ilustradores que gosto, literatura relacionada, um insight pode vir a qualquer momento, mas acho que estas coisas ajudam. Sempre tenho um momento caótico de muitas formas desenhadas, ideias, mas o momento em que você pensa “é isso!” é incomparável.”
Raíza Bruscky

“Outra coisa fundamental que acho é comprar lápis e nanquin de diferentes espessuras, ajudam a entender profundidade e forma. Tintas diferentes, papéis, carimbos, testar tudo livremente.”
Raíza Bruscky

Da tentativa e erro até seu próprio traço sair

Gabriela Namie

“Acho que criar meu estilo foi algo que veio naturalmente. Acabei me “apaixonando” por certos estilos, não só por seu aspecto visual, mas pelo processo e fui me sentindo bem fazendo algo específico. Mas, de tempos em tempos, algo acontece, não sei, uma mudança pessoal talvez que impulsiona outras estéticas… e aí de repente algo que você fazia antes é completamente negado e você só quer se reinventar!

Quando comecei a me interessar mais por design de tipos, não conseguia mais ver nada colorido, tons pasteis. Eu só queria preto e branco. Todo o resto parecia vulgar. É engraçado, mas é verdade. Isso muda, volta… o bom dos projetos pessoais é isso, podem ser só uma manifestação de algo que você sente, e não uma racionalização de uma demanda de mercado.”
Gabriela Namie

Pri Ferrari

Ter um ou mais estilos é um eterno exercício. Nada surge repentinamente, sua própria linguagem é resultado de pesquisa e prática contínuas. Quando você quer se dedicar a uma determinada área, qualquer que seja, é fundamental buscar referências históricas, teóricas e práticas, acompanhar trajetórias, mercado, ferramentas e outras coisas relacionada.

Mas estilo jamais deve ser visto como restrição, algo único, mas sim formas de criar com as quais você se identifica, e podem ser múltiplas.”
Raiza Bruscky

Levando a ilustração a sério e como isso funciona

Pra cada trabalho a inspiração vem de algo diferente. Normalmente, é uma grande quantidade de tempo e pensamento que você coloca em algo. Os trabalhos que eu mais me orgulho foram resultado de eu estar muito apaixonada pelo tema. Por isso que trabalhos pessoais são ótimos. Você pode simplesmente trabalhar com um tema que você já ama. E a partir disso, juntar referências visuais, textuais, sensoriais… dormir com isso e no dia seguinte (isso é muito importante pra mim e pra muitas pessoas que conheço!), no banho, no metrô, ficar imaginando tudo isso junto. Depois ficar testando conceitos e ideias visuais diferentes. As vezes, as coisas surgem do inesperado, de um acidente. Na maior parte das vezes, é isso!”
Gabriela Namiê

Raíza Bruscky

“Criação é um pouco menosprezada por outras áreas, mas bastante forte internamente. Muitas pessoas se apoiam, e um certo networking ajuda pois a oferta é grande. Frequentar encontros, palestras, cursos e movimentar/ajudar a cena local são coisas extremamente importantes.

Quando penso em criação como possível trabalho, lembro da minha infância vendendo no colégio desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco e das Spice Girls. Também vendia autógrafos (q) e ~livros~ no trabalho da minha mãe. Criança não tem trava mental e o maior problema dos adultos: auto-julgamento. As pessoas fazem parecer difícil, mas não é. Eu sempre desenhei muito, mil vezes mais do que agora. Todo dia desenhava em papel ou no computador, pintava, fiz escolinha de arte e curso de quadrinhos, fazia hqs pra estudar, sempre tive um aprendizado mais visual, eu mesma desenhava narrativas ou modelos para auxiliar nos estudos.”
Raíza Bruscky

Pri Ferrari

Sites, livros, cursos, referências...

Dicas da Debbie:

Skillshare
Conheci o Skillshare procurando cursos de ilustração de moda no ano passado. O site (e o app!) tem cursos de fotografia, ilustração, tipografia, escrita, programas de edição, aquarela, doodling e tudo que você imaginar que esteja ligado a arte ! Uma coisa legal é que os cursos são curtos, de 30 minutos até 2h de duração, e aí não tem desculpa pra ir deixando para depois.

Tô esperando só ficar um pouquinho melhor para fazer esse curso aqui no Craftsy de “desenhando o dia a dia” porque morro de vontade de aprender a desenhar ambientes e lugares que visito.

Um livro que eu usei e gostei bastante foi um bem basicão, chamado You can draw in 30 days, que ensina de forma super simples como você consegue criar formas, profundidade, sombras, perspectiva…é bem legal e me deu uma ótima noção do mais básico de ilustração. Eu aplico o que aprendi para quase tudo hoje!

Esse é meu board do Pinterest com várias coisas que eu me inspiro, gosto e fico tentando copiar para aprender como faz.

Esses são dois canais do Youtube que eu vi muuuita gente falando bem na internet e que ajudam a aprender a desenhar: Proko e Sycra. Ainda não testei, mas falam que eles são BEM bons.

Fim das dicas da Debbie :D

“Eu faço aula de arte digital na Quanta Acadêmia aqui em São Paulo. O curso é bem completo e tem a duração de um ano. Lá também tem opções de ilustração, desenho básico, quadrinhos. Se isso é algo que você quer mesmo fazer, sugiro sim um curso presencial.

Uma boa dica também é procurar referências de expressões e desenhos no Pinterest.
Gosto desse board e desse site que gera poses pra treinar.”
Pri Ferrari

“Os livros nunca deram certo comigo. No fim, eu nunca pegava e treinava. Mas o Pinterest tem muitos pins com dicas e técnicas de anatomia e perspectiva que são muito bons. Olhar o Behance, Pinterest, Grain Edit… tudo ajuda muito. Existem ilustradores muito bons na Agent Pekka também! Ver o trabalho dos outros é sempre bom. Mas ultimamente, eu tenho pirado em ficar olhando as pessoas na rua e imaginando como eu desenharia de um jeito simples. É um bom exercício ficar olhando pra alguém e pensando como você desenharia.”
Gabriela Namiê

Raíza Bruscky

“Gosto muito do livro “Desenhando com o lado direito do cérebro”, de Betty Edwards. Ela é uma arte-educadora e trabalha muito a parte de percepção da forma antes do desenho propriamente dito, trabalhei esse livro nas aulas de desenho da faculdade e o resultado é incrível. Betty Edwards diz também que o que precisa ser treinado não é a mão, mas o olho.

Recomendo fortemente livros de processo, pesquisa, cadernos de idéias originais, sketches. Existem muitos livros assim de designers, artistas, ilustradores, cineastas, e descrevem o processo de forma mais direta impossível.

Lynda.com
é a melhor fonte para treino e domínio de softwares, técnicas de coloração e outros macetes.

Para referências:

Cartoon Brew
Illustration Age
Grain Edit
Parka Blogs – O Parka é de enlouquecer, são inúmeros reviews de art books pra quebrar o porquinho e entregar pro Amazon.

Existem muitos livros específicos legais. Mãos, pro exemplo, são extremamente difíceis de desenhar. O Drawing Dynamic Hands Paperback tem boas lições. Para perspectiva, recomendo “A Perspectiva sem Dificuldades”, de Phil Metzger.

Gosto de ler sobre história e processos criativos de grandes mestres:
Este de Maurice Noble serve para todas as áreas criativas – The Noble Approach: Maurice Noble and the Zen of Animation Design
Mary Blair foi uma grande artista da Disney – Magic Color Flair: The World of Mary Blair
O Cartoon Modern: Style and Design in 1950s Animation é um bom exemplo de livro específico sobre um estilo.

Esses são alguns exemplos de artistas que eu admiro, mas você pode e deve fazer suas pesquisas visuais, identificar inspirações e procurar livros específicos para elas:
Diário de FridaTintin: the art of hergéArt of Edward GoreyThe Art and Making of Peanuts Animation,
MetaMaus: A Look Inside a Modern ClassicNaive: Modernism and Folklore in Contemporary Graphic Design
Saul Bass: a life in film and designThe Perry Bible Fellowship AlmanackHugo Pratt Périples imaginaires : Aquarelles
Raíza Bruscky

Outros detalhes legais que saíram nas entrevistas

Eu me viro com o que sei, vou testando mil coisas até achar que consegui me expressar.
Ah, e o mais importante de tudo: eu não sei desenhar.
Conheço pessoas que desenham muito mais que eu. Sabem coisas que eu adoraria saber.
É aquela frase “Se você nao tem bunda, use laços no cabelo” hahahaha”
Gabriela Namie

“Lembro que tive um bloqueio quando resolvi fazer um curso de quadrinhos com um desenhista de estilo super-heróis, eu tinha 11 anos e a turma era só de pessoas mais velhas,que desenhavam super bem nessa estética, me sentia um peixe fora d’água quando se treinava anatomia. Aquilo não me interessava, abandonei na segunda aula com um pouco de insegurança e frustração, mas certeza que não era minha praia.
Raíza Bruscky

 

E é isso, gente! Acho que com as informações que a Pri, a Gabi e a Rai deram pra gente, já dá pra dar um gás nessa vontade de aprender a desenhar e começar a praticar desde já, né? O negócio é prática, é conhecer o que a gente gosta, observar muuuito e não ter medo de colocar a mão no lápis e começar a rabiscar. 

Muito obrigada a essas três lindas pelas milhares de informações e palavras de incentivo pra todo mundo que, como eu, anda querendo aprender a ilustrar. <3

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