Até mais, Berlim, e obrigada pelas bikes

Depois de quase nove meses morando nessa cidade incrível, sair da nossa casa berlinense pela última vez fez meu coração doer um pouquinho. Aquela porta enorme que eu demorei tanto tempo para pegar o jeito, e as chaves, quase – mas nunca! – esquecidas para dentro, dessa vez ficaram junto com moedinhas pequenas que adquirimos ao longo da nossa vida ali.

Mesmo depois de deixar toda uma vida dentro da porta, o que mais me marcou em Berlim nesse tempo ali foi nosso aprendizado enorme em tão pouco tempo. Conseguir metrificar tão claramente o tempo que demoramos para aprender cada coisa me fez ainda mais grata pelo tempo que estivemos ali. Nesses oito meses e pouco, muita gente me perguntou: mas por que Berlim? mas o que você vai fazer aí? mas por quanto tempo?, e a resposta para todas essas questões esteve sempre tão óbvia que mal conseguíamos formular uma frase para explicar. Na nossa cabeça era óbvio que ali, naquele momento, seja lá por quanto tempo, Berlim era o nosso lugar, a nossa cidade. Mais do que qualquer outra. Que estávamos simplesmente vivendo, explorando, nos conhecendo e aprendendo um pouco sobre nós, sobre o mundo e sobre tudo que nos cercou nesses meses.

Berlim vai me marcar para sempre como o primeiro lugar que eu vivi que me engoliu crua naquela cultura e me cuspiu de volta para o mundo como uma mulher mais madura, independente, cada dia mais dona das minhas ideias, com várias respostas para as minhas dúvidas e cheia de mais e mais questionamentos e sonhos. Sonhos que Berlim me mostrou que não estão lá longe, fugindo de mim, mas esperando que eu pule e agarre-os de uma vez.

Berlim foi a cidade que me transformou em uma adulta. Paguei minha vida e a dos meus cachorros do começo ao fim, lidei com a casa, as contas, problemas, dúvidas, burocracias, machucados, doenças, distâncias e cresci exponencialmente como nunca pensei que seria capaz antes dos 25 anos. Berlim me mudou para sempre jogando perrengues em alemão, nos dando amigos de outras nacionalidades, inventando cada dia mais fases pra gente passar e assinar de vez o contratinho da nossa independência.

Berlim é daquelas cidades que vamos sonhar várias noites pensando como seria nossa vida se continuássemos ali. Sendo o que a gente quer ser sem que ninguém nos julgue, vivendo rodeado de coisas que deixam a vida mais feliz, tranquila, saudável e menos louca. Sem tanta correria, sem medo do desconhecido, com um senso de desapego enorme pelo que não importa e valorizando todos os dias o que realmente te faz bem. Podendo ser injusta, pouco amável e até pouco acolhedora de início, mas que te conquista pelas coisas mais simples que a vida deveria ser feita.

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A visão que eu tenho de Berlim hoje é exatamente o que a cidade me deu todos esses meses: liberdade. De ser, de andar e de viver. E é por isso que hoje, duas semanas depois de sair de lá, já começo a me questionar se no fim todos os caminhos não vão me levar de volta pra Berlim.

Cidade linda, obrigada por me ensinar a me virar com a casa, com a feira, com o dinheiro e com a língua. Por me fazer me sentir em casa mesmo há tantos kilometros de São Paulo e ainda me mostrar que essa distância toda pode até fazer diferença, mas não muda a sensação de lar que nós somos capazes de criar em qualquer lugar.

Obrigada por não ser fácil, por não me abraçar com amor desde o primeiro momento, por me fazer enxergar o mundo com olhos menos preconceituosos, mais curiosos e abertos. Obrigada até pelas noites mal dormidas quando o sol já estava no céu às 4h30 da manhã no meio do verão, pelas cicatrizes feitas com a bicicleta e pelos caminhos percorridos no meio da madrugada sem nenhuma preocupação. Por me ensinar que um país só funciona quando o povo também quer que ele funcione e por fazer a sua parte, para que nós sempre possamos fazer a nossa.

Obrigada por me fazer crescer tanto em tão pouco tempo, Berlim. Nos vemos em breve. <3

Esse post é a minha despedida individual de Berlim. Aqui tem o post de despedida de Berlim feito pelo Fê. :) 

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