5 coisas que outras cidades deveriam aprender com Berlim

Uma das partes mais legais de morar em países diferentes é aprender aqueles costumes únicos de cada cidade. Por todo lugar que passamos, pegamos algumas dessas coisas para levar junto. Coisas pequenas, mudanças do cotidiano que acabam fazendo muita diferença na forma que enxergamos a vida. Já até escrevi sobre isso aqui no blog antes.

Agora que estamos em Barcelona conseguimos enxergar vários hábitos que aprendemos em Berlim, e é muito legal ver como isso mudou a gente. E a cidade ao nosso redor é parte essencial dessas mudanças. Cada cidade ajuda a direcionar os costumes das pessoas ali. Não só a Alemanha, mas também São Paulo, Curitiba ou Tokio.

E foi daí que surgiu essa lista de coisas que curtimos muito e que toda cidade poderia aprender com Berlim. Nada mirabolante, tudo aplicável e maravilhoso.

Seu dinheiro de volta com o Pfand

Sempre que você compra garrafas de plástico ou de vidro, dentro do preço você sempre paga o valor de cada uma das embalagens. Isso acontece no mundo inteiro, mas na Alemanha você pode pegar esse dinheiro de volta colocando essas garrafas para reciclagem.
O sistema funciona assim: muitas garrafas de plástico e quase todas as de vidro tem um sinalzinho indicando que o material é reciclável. Você pode guardar a embalagem e trocar em qualquer supermercado pelo quanto pagou naquela embalagem – que fica sinalizada na hora da compra.

As garrafas de plástico podem valer até 0,25€, então se você juntar quatro delas, pega de volta 1 euro. Demais, né? Isso significa que todo mundo está reciclando o tempo todo. Por exemplo: você guarda as garrafas de água que toma, leva no supermercado que tem a máquina do pfand e pega uma ficha correspondente ao valor das embalagens. Esse ticket pode ser trocado no caixa por dinheiro ou descontado da sua conta final, caso tenha feito compras ali. E todo mundo troca o tempo todo, não é uma coisa de “gente que precisa de dinheiro”. É seu reembolso, afinal.

Leia também: Como transferir dinheiro para a Alemanha pagando pouco!

Como as garrafas de vidro acabam pesadas demais e cada uma vale só 0,08€, muita gente só recicla o plástico no dia a dia. Aí colocam garrafas de vidro – depois de juntar em casa ou bebendo na rua – no canto da calçada para alguém que quer levar. Você vê sempre alguém andando com carrinhos de supermercado, coletando as garrafas da rua e trocando esse valor por qualquer coisa no supermercado. Ou você recicla e pega seu dinheirinho de volta, ou você deixa sua garrafa para outra pessoa coletar da rua, reciclar e usar o dinheiro da forma que precisar. A cidade fica mais limpa e ainda ajuda gente que precisa. É ganha-ganha.

Amigável para cachorros

Na Alemanha toda você pode entrar em qualquer lugar com seu cachorro. Como todos eles são adestrado, são sempre bem comportados. Em Berlim nós vimos cachorros em todos os lugares possíveis, sem atrapalhar ninguém, só curtindo junto com o dono. Andando de metrô, ônibus e trams, dentro de lojas, cafés, restaurantes e festas.

Para não deixar os cachorros sozinhos em casa o dia todo, muitos escritórios deixam você levar seu animal de estimação para o trabalho e é comum o serviço do dog sitter – quase uma babá do cachorro!

Respeito pelo outro

Essa é uma das coisas mais bacanas dos alemães: eles respeitam MUITO as pessoas. Provavelmente é uma consequência histórica, mas em Berlim eles tratam todo mundo como iguais. Não importa se você é mulher, negro, baixo, gordo, lixeiro, empresário ou mendigo. Passei 9 meses vivendo em Berlim e posso contar nos dedos de uma mão as pessoas que mexeram comigo na rua.

A liberdade de fazer o que você quiser em Berlim sem que ninguém te questione ou te desrespeite por isso é enorme. É claro que, como em qualquer cidade do mundo, tem gente intolerante, arrogante, preconceituosa, racista e tudo que queremos distância, mas eles parecem se esconder muito bem em Berlim.

Silêncio

O alemão costuma ser um povo bem silencioso. Apanhamos bastante para nos acostumarmos com isso no começo, mas hoje achamos ótimo. Não importa a hora do dia ou nos bairros mais movimentados, se você abrir a janela da sua casa vai ouvir pouquíssimo barulho. Nos restaurantes, eles conversam normalmente, mas o tom é sempre baixo. No trânsito, é difícil ouvir buzinas. Nosso apartamento alugado era uma paz noite e dia mesmo com a janela aberta

Quando fomos visitar São Paulo, mesmo em um bairro residencial e em um apartamento alto, o barulho dos carros, das pessoas, de tudo acontecendo ao mesmo tempo era absurdo. Bem que dizem sobre São Paulo ter o maior nível de perturbações mentais do mundo – e nós só percebemos isso de verdade quando saímos da cidade. Hoje, morando num centro turístico na Espanha, nós sentimos MUITA falta da tranquilidade sonora que é viver em Berlim. E não é porque todo mundo é quieto, mas porque todo mundo fala em um tom de voz mais baixo e não incomoda o outro. Se for parar para pensar, é uma questão de respeito também.

Pegar coisas da rua

Em vários lugares da Alemanha, especialmente em Berlim, quando você não quer mais alguma coisa – um móvel, roupas, eletrônicos, materiais de construção, revistas, vinis, conjunto de taças ou absolutamente qualquer outra coisa – você simplesmente coloca em um cantinho da calçada.

Quando chegamos lá, achamos MUITO bizarro ver várias coisas pelos cantos da rua e não entendíamos nada. Alguns dias depois, a ficha caiu. Se alguém passar por ali e estiver interessado, é só pegar. Simples assim. E você vê gente levando coisas para casa o tempo inteiro. Nossa primeira experiência dessas foi no dia que deixamos uma mala de viagem com as duas rodinhas da frente quebradas perto de casa. Queríamos testar essa ~mania~ e, se ninguém pegasse, nós jogaríamos no lixo depois. E eu mal consegui apoiar ela na parede do prédio! Estava colocando e uma mulher veio perguntar se eu estava me desfazendo da mala. Disse que sim, ela avisou que gostaria de leva-la, eu entreguei e fim. Foi aí que a gente entendeu o real poder desse desapego de coisas na rua. E não são pessoas pobres, necessitadas, que pegam as coisas da rua. São pessoas comuns que olharam para aquele negócio, pensaram “poxa, isso cairia bem lá em casa” e levaram. Eu, você, qualquer um. Foi por causa dessa mudança de pensamento que trouxemos o Milo para casa, o touro de porcelana de três pernas que achamos aqui em Barcelona.

À partir daí deixamos muitas coisas na rua e tudo sumia em questão de minutos. Temos amigos que pegaram sofás e móveis e nós pegamos algumas coisas para casa também, como assadeiras e pratos. É normal. É a tal da economia compartilhada e da sustentabilidade vista de um patamar altíssimo. O que ninguém se interessar, é só esperar o caminhão de lixo recolher.

Bônus: áreas verde

Vocês já devem estar de saco cheio sobre o quanto falamos que Berlim tem áreas verdes. O fato é que Leslie Knope ficaria orgulhosa da cidade, e isso muda muito a vida ali. Facilita a interação das pessoas em espaços públicos e gratuitos, deixa as crianças, adultos e animais aproveitarem melhor a rua e transforma muito a cidade. Eu não dava valor para áreas verdes enquanto morava em São Paulo, e hoje morro de saudades de uma pracinha com árvores e grama em Barcelona.

Como qualquer outra cidade do mundo, Berlim também é cheia de defeitos. Alguns hábitos dos alemães, na minha visão, também podem ser bem questionáveis. Assim como alguns hábitos do espanhol, do brasileiro, do finlandês ou do japonês. Nesse post eu tento focar, justamente, nas coisas boas que eu encontrei na Alemanha e que seriam bem legais de se ver em outros lugares do mundo, especialmente no meu país. E também tem alguns hábitos brasileiros que eu polvilharia pela Alemanha toda!

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