Adiós, Barcelona

Nesses últimos quatro meses nós passamos por mil coisas por aqui. A cidade dos turistas, a paixão de quase todo europeu e o privilégio, cada vez mais raro, de viver como um local em uma cidade que se transforma todos os dias para dar mais e mais prazer a cada viajante que pisa por essas ruas estreitas.

Barcelona nos recebeu com dias cinzas, chuvosos e pouco amigáveis. As poucas praças sem grama, a praia sem sol, nossa casa sem aquecimento e nosso bairro sem iluminação. Foram os primeiros dias de uma realidade completamente diferente, vivendo em um bairro turístico, perto da praia, com uma língua e uma cultura tão próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes da nossa.

Desde o início as bandeiras nas janelas nos deixavam claro: aqui, você nunca está na Espanha. O espanhol, ou melhor, o castelhano, só aparece por um mero acidente de percurso. Você está na Catalunha. Acho que nunca aprendemos e falamos tanto sobre uma região na vida quanto falamos sobre ela. Seu orgulho, sua lingua, sua comida, suas bandeiras, tradições, problemas e, acima de tudo, sua forma de nos receber.

No fim, Barcelona é um lugar fácil de morar. Fácil porque o verão é longo, a lingua é próxima e a cultura não destoa tanto da nossa. Barcelona é uma cidade para turistas e para locais, misturados em portas enormes e pequenas descobertas, novas e velhas, muitas delas recriando experiências locais que já foram extintas e oferecendo esse sonho espanhol – ou melhor, catalão – aos turistas. Misturando em prédios cheios de história todos aqueles que se apaixonaram por uma cidade tão cheia de nuances em tão pouco espaço.

Barcelona nos mostrou que, mesmo em meio ao caos, você é capaz de encontrar paz. Por mais clichê que isso possa parecer. Que depois de uma semana abrindo a janela para ouvir todas as línguas do mundo entrando por ali, o som vira quase música de fundo da sua vida. Mostrando que tem gente ali embaixo, vivendo, curtindo, conversando, namorando, se conhecendo, mesmo que as vezes acabe em barulho demais. Em gente demais. Em histórias demais.

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Barcelona me mostrou que você não precisa estar de férias para curtir o dia como se estivesse. Que tudo bem, às vezes, estar no meio de uma multidão animada indo para os lugares. Que os pontos turísticos não são, por definição sempre mergulhados em turistas. Esses que, aliás, também tem muito a ensinar. Que faz parte da vida seguir a maré, com calma, mesmo que o tempo não seja infinito.

Viver em um bairro turístico exercitou nossa paciência como nenhum outro lugar. O de respeitar o momento alheio sem julgar, e até de começar a enxergar mais a vida, do supermercado de toda semana aquele detalhe da rua nunca antes visto, como um eterno viajante em busca de histórias para contar. Existe uma coisa muito especial acontecendo em lugares cheios de gente como aqui: todos querem viver coisas incríveis. Todos estão abertos a curtir algo novo, conhecer coisas diferentes, dançar com a valsa de um músico de rua mesmo quando todos estão olhando – e te fotografando.

E foi Barcelona que nos mostrou essa alegria constante do viajante como algo fantástico, da forma que realmente deveria ser visto. Foi Barcelona que nos fez pensar porque deveríamos ser, todos os dias, as pessoas que nós somos quando estamos viajando. Incorporar, ao menos um pouquinho, esse espírito aventureiro, descobridor, simpático e aberto a coisas novas. O espírito de alguém que quer viver coisas incríveis.

No fim, viver coisas incríveis é o que todos nós queremos – em qualquer lugar do mundo.

Obrigada pela nossa vida nesses últimos meses, Barcelona. Fins aviat! :)

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