Viajar é viver com expectativas

Estávamos saindo de Valência e resolvemos dar uma passadinha na Ciudad e de Las Artes y las Ciencias, um complexo cheio de prédios culturais na cidade. E era basicamente tudo que a gente sabia sobre esse lugar, além de ter visto uma meia dúzia de fotos. “Ah, vamos só passar lá rapidinho, só uma horinha, e ir embora.”

Não tínhamos expectativas de nada e o que viesse era lucro. E veio. Veio um complexo com arquitetura maravilhosa, super forte culturalmente e cheio de coisas para fazer. Um complexo com cinema IMAX 3D com planetário, museu interativo de Ciências, trilha com plantas selvagens, o maior aquário da Europa, uma casa de óperas, um espaço de eventos e outro de exposições, além de um parque gigante e super bem cuidado. Quer lugar mais legal que esse?

A gente ficou fascinado! Ainda mais gostando de arquitetura como a gente gosta. Andamos por lá tirando um milhão de fotos e tentando aproveitar de tudo. Gostamos tanto que nem um pequeno ~imprevisto~ com o Luca – quem nos segue no Instagram (barkingaround) sabe do PROBLEMINHA que rolou hahaha – foi capaz de estragar nossa felicidade em estar lá, naquele lugar incrível.

Parte dessa felicidade veio, justamente, do fato de não estarmos esperando nada. Estávamos sem muita expectativa, sem ideia do que nos aguardava quando paramos o carro. E quando vimos que aquele negócio era tão mais legal do que estávamos imaginando, tudo ficou ainda melhor.

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Estamos sempre pesquisando tanto sobre a cidade que vamos passar as férias que já chegamos lá com mil ideias na cabeça. Já vimos milhares de fotos dos lugares que já nos sentimos íntimos. Você sai do hotel já pensando “Hoje o dia será incrível! Vou conhecer aquele lugar lindo!” ou até “Acho que nem vou gostar muito desse museu, mas todo mundo fala tanto dele, né?”. Você já viaja antes, só pelas expectativas.

E isso é super normal, né? Você está tão empolgado com aquilo que fica horas planejando na sua cabeça como vai ser. E, para falar a verdade, normalmente você tem uma experiência totalmente diferente do que planejava e, no fim do dia, fala “foi melhor do que minhas expectativas” ou, pelo menos, diferente. Chato é quando suas expectativas são tão altas que um lugar que era para ser ok, vira ruim. É foi assim que entramos na segunda parte do nosso dia na Ciudad e de Las Artes y las Ciencias.

Ficamos tão empolgados com o complexo que o que era para ser uma passadinha de uma hora já tinha virado três horas andando por lá. E queríamos mais. Pensamos em entrar numa daquelas bolas de ar e ficar flutuando pelo lago, pensamos em ir numa exposição da Pixar que estava rolando, pensamos em assistir alguma coisa no cinema 3D, mas o que todo mundo sempre falava de lá era o tal do aquário. “O maior aquário da Europa!” e você pensa: uau!

Até aí, não tínhamos gasto nada – entrar no espaço é gratuito –, então resolvemos ver qual era a desse tal aquário. Com a arquitetura de tudo sendo tão maravilhosa por fora, ficamos loucos pensando como era tudo por dentro. Ainda mais por dentro de um aquário! Eles falavam de metros e metros de túneis subterrâneos e a gente achando que chegaria lá pra mergulhar num oceano maravilhoso com bichos lindos e felizes nadando ao nosso redor e não iríamos querer sair de lá nunca mais. O arquiteto deve ter mandado muito!

Spoiler alert: só que essa parte ele deve ter passado pro estagiário.

Como os cachorros já estavam super cansados de tanto correr no parque e no calor, deixamos eles dormindo no carro na garagem fresquinha e coberta e saímos para a entrada do aquário. 28 euros pra cada. Para quem não sabe a cotação atual do euro, isso dá tipo o preço de um carro popular uns 100 reais. Caro. Facada. Mas, meu Deus, são túneis subterrâneos. Olha essas fotos. Olha essas avaliações no Trip Advisor. Mas. Mas. Mas. E resolvemos entrar

E, de verdade, ele é realmente bem legal na parte aberta. Mas que decepção horrível entrar para ver um monte de animais em espaços tão pequenos, em túneis tão sem graça, com tudo tão de qualquer jeito. Tudo lascado, com iluminação ruim, com os bichos visivelmente desconfortáveis. Nem o audioguide era bacana.

Não sei se fomos exigentes demais – porque já fomos no segundo maior aquário do mundo, em Atlanta, esse sim é maravilhoso – ou se fomos com expectativas demais, mas ficamos quase nada lá dentro e saímos bem chateados de termos gasto tanto dinheiro e perdido nosso tempo num lugar tão fraco. A gente não recomenda e até criou uma piadinha que estamos usando que é “Acho que entrar nesse lugar vai ser meio que o aquário” para definir uma experiência bem sem graça, mas o povo do TripAdvisor ou Foursquare da vida até que gosta do lugar.

E estou hoje aqui para falar que, ok, essas coisas acontecem. Essa expectativa em viajar é uma coisa que eu acho boa, te empolga a ir descobrir as coisas. O importante é você saber lidar quando elas não saem muito como planejado. Quando elas te fizeram gastar o preço de um pequeno palácio para entrar num lugar que você só queria sair correndo. Acontece. Quanto mais você viajar, mais coisas incríveis você vai descobrir, mas também mais vezes você vai se decepcionar, comer comida ruim, pagar caro numa balada vazia, querer arrancar uma Beluga de dentro de um aquário e levar pra casa. Nem Paris está a salvo. E acontece. Bola pra frente.

Saindo do aquário, experimentamos pela primeira vez a orxata, uma bebida típica do sul da Espanha feita com tubérculos de chufa, uma planta cultivada por aqui. Também não gostamos muito dela, mas só a experiência de termos tentado algo novo que não era péssimo já nos ajudou a curar um pouquinho a tristeza pelo aquário. No fim, nossa tarde na Ciudad e de Las Artes y las Ciencias foi incrível, mas, ao invés do aquário, deveríamos é ter ido ver o filme do Pelé na exposição da Pixar.

Esse post faz parte do #MonstritosNaEspanha, nossa viagem pelo sul da Espanha. Para ver os outros, é só clicar aqui. Falamos mais sobre Valência neste post aqui. Também dá pra ver as fotos que tiramos no Instagram por aqui.

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