Granada: dormindo em cavernas e visitando palácios muçulmanos

Durante nossa viagem pelo sul da Espanha, passamos alguns dias conhecendo Granada. Em uma época a gente quase foi morar lá – mas acabamos optando por Córdoba – e já sabíamos mais ou menos o que esperar: uma cidade lindíssima, com um apelo histórico muito forte, que te dá tapas de graça quando você pede algo para beber e, ao menos durante o auge do verão, um calor absurdo.

Só que muito além disso, Granada superou nossas expectativas – tanto do calor, quanto pela beleza da cidade – e ficamos apaixonados por aquelas ruazinhas brancas, pelo nosso hotel dentro de uma caverna (!) e por toda a animação que as noites de verão, um pouco mais fresquinhas e cheias de gente jovem, podem oferecer.

A cidade tem esse pé na história porque todo o tempo você se vê em uma grande mistura da cultura islã com a católica. Parece que tudo é um grande cenário de filme. É também em Granada que fica a Alhambra, um conjunto de fortalezas e palácios que ficavam a disposição do Califa, que vivia ali em Andaluzia entre o século X e XV.

E não dá para esquecer da oitava maravilha dali: tapas grátis com qualquer uma das bebidas que você pedir. Gente, é maravilhoso! A cada cerveja, uma comidinha chega junto na mesa. Ali é uma das cidades espanholas que mantiveram essa tradição – e foi por causa dela que comemos muito mais salmorejo do que o esperado, já que ele estava sempre na lista de opções e é maravilhoso para o calor. Ainda não sabe o que é salmorejo e vai para o sul da Espanha? Vem dar uma lidinha nesse post aqui e nesse também. :)

 

dormindo na batcaverna

Ficamos hospedados em Sacromonte, um dos bairros mais tradicionais da cidade – um dos que ficam no meio das casinhas brancas dentro das pedras. Ficamos no Cuevas El Albanico, que aceitava cachorros e em todos os quartos (são só quatro, afinal) tinham uma pequena cozinha para você preparar seu próprio café da manhã, além de uma parte externa com mesinhas. Os quartos não tem ar condicionado, mas como você fica literalmente hospedado dentro de uma caverna, tudo fica bem fresquinho – mas o sinal da internet acaba ficando bem fraco também. Tivemos que trabalhar da sacada, tomando cerveja pra aguentar o calor. Que chato, né?

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Ah! Se você está indo pra cidade de carro, o que era nosso caso, tem que ficar bem atento porque não pode entrar com veículos não cadastrados no centro de Granada. Não lemos as orientações do hotel e, por causa do GPS que sabe que você não pode entrar em umas ruas, acabamos indo parar em uns lugares muito doidos da cidade e tivemos que ligar pra dona do hotel, pedir para ela nos buscar de moto e liberar a passagem do nosso carro. Logo, leiam as instruções do hotel.

 

o califa tá de olho na arquitetura dela

Como todo resto da região de Andaluzia (falamos um pouquinho mais sobre isso aqui), por séculos Granada esteve sob domínio muçulmano. Lá foi uma das últimas cidades a serem tomadas pelo cristianismo. Não por uma guerra, mas por um acordo: as pessoas poderiam continuar praticando sua religião, qualquer que fosse, mesmo após Granada ter sido tomada pelos católicos. Isso garantiu uma certa continuidade à cultura muçulmana que se reflete muito em toda arquitetura da cidade.

As duas religiões viveram em harmonia nesse período, mas alguns anos depois, quando a corte foi para Granada, eles não gostaram nada de que a cidade ainda era tão ligada ao Islamismo. Como já era de se esperar, começaram as conversões forçadas fazendo ameaças, cometendo assassinatos e prendendo muçulmanos importantes que viviam aí. Ah, as brigas religiosas…

Aconteceu tudo aquilo que a gente já sabe que todas as religiões já fizeram, em algum momento ou outro da história: queima de livros, destruição ou conversão de mesquitas para igrejas, remoção de cemitérios e os transformando em conventos, expulsão pessoas de suas casas no bairro de Albaicín, o mais icônico do islamismo naquela época e tal.

Ainda assim, até hoje a influência muçulmana é muito forte naquela região e existem ruas que você se sente no Marrocos – da mesma forma que nos sentíamos em algumas ruas de Córdoba.

 

descobrindo cada cantinho da cidade

O centro turístico de Granada é relativamente pequeno. Muitas e muitas subidas e descidas, mas é bem fácil de se localizar. Se você é como a gente, vai estar com as pernas bem fortinhas quando sair da cidade. Os principais bairros para explorar e gastar calorias são:

Sacromonte

Ele costumava ser o bairro dos ciganos que se instalaram na cidade depois que os cristãos tomaram conta. Todo branquinho, com grutas que viraram casas – nosso hotel ficava em uma delas. Como dá pra imaginar pelo nome, Sacromonte é cheio de subidas e descidas, então vá preparado. Tudo tem um chãozinho de pedras ótimo pra você escorregar. É legal andar por ali e procurar lugares mais tradicionais para assistir uma apresentação de flamenco – especialmente se for um flamenco cigano, chamado de zambra.

Albaicín

Como falamos ali em cima, esse bairro foi palco dos principais acontecimentos históricos de Granada, especialmente em relação a cultura muçulmana. É o mais famoso para turistas, super visitado por causa de toda sua arquitetura moura, as casinhas brancas e os restos de algumas das muralhas que já fecharam a cidade. Hoje é Patrimônio Universal da UNESCO. Aqui você também vai encontrar vários bares com mesinhas para fora boa parte do ano, sendo um lugar bem legal para sair a noite.

 

El Realejo

É o centro de Granada. Fica aos pés da Alhambra e também tem muitos cafés, bares e restaurantes para conhecer durante a noite, fora um milhão de lugares para turistar. Durante a maior parte do ano esse bairro fica bem cheio de estudantes que estão em Granada fazendo intercâmbio, e o ano todo cheio de turistas por todas as partes, nos vários restaurantes e bares prontos para acolhê-los. Ele tem uma arquitetura um pouco mais próxima do resto da Espanha e bem diferente dos outros dois bairros.

 

o que fazer em Granada

Como fomos pra Granada com a Lisa e o Luca, nosso maior programa acabou sendo mais andar pela cidade do que entrar em lugares específicos. De qualquer forma, uma coisa a gente sabia: queríamos conhecer a Alhambra e o Generalife.

E aí fica uma dica bem importante para Granada: compre as entradas com antecedência. Quando chegamos na cidade não tinha mais entrada paro resto da semana. Sorte que descobrimos um cartão chamado Dobla de Oro, que te dá direito às entradas dos maiores pontos turísticos da cidade, incluindo os dois que queríamos conhecer.

Por pouco mais que o valor do ingresso só pra Alhambra e Generalife, o Dobla de Oro também da direito a conhecer outros monumentos da cidade, como Bañuelo e o Palácio de Dar al-Horra em até 48h. Além disso, você também recebe vários descontos em outros pontos turísticos e até no Hop-On-Hop-Of. É bem legal pra quem está sem filhos caninos e quer fazer o tour completo com mais calma. Você pode ler mais sobre ele aqui.

 

que lugar maravilhoso meudeusdocéu

No nosso último dia em Granada, fizemos check-out do hotel, pegamos o carro, saímos da cidade, deixamos a Lisa e o Luca em um hotelzinho para cachorros e voltamos para Granada, para conseguir conhecer Alhambra sem nos preocuparmos muito.

A Alhambra era uma cidade fechada por muros que antigamente vivia separada de Granada – que também tinha suas próprias muralhas dividindo vários distritos. Ali dentro eles tinham palácio, mesquitas, escolas, oficinas, plantações, tudo que fosse necessário para pessoas viverem normalmente. Ela foi criada principalmente entre 1248 e 1354, e acabou virando refúgio de artistas e intelectuais que procuravam um ambiente ainda islâmico em meio a tanta pressão dos cristãos conquistando al-Andaluz.

A parte mais importante e incrível da Alhambra são os Palacios Nazaries, esse das fotos aí de cima, um conjunto de palácios que era residência dos reis de Granada. Dentro dele você tem três palácios para conhecer e também alguns pátios no meio das construções. Uma coisa bem legal é prestar atenção no contraste entre externo e interno de cada um deles: por fora, parecem sérios e muito fortes. Por dentro, cheios de detalhes super delicados.

A Alcazaba é um complexo militar que, pelo que tudo indica, foi construída em cima de uma fortificação romana. Você consegue ver no chão as separações das casas que os soldados viviam, onde ficavam as masmorras etc. É ali que tem uma torre de vigia com uma das vistas mais legais de Granada.

O Generalife era a casa de férias dos sultões de Granada, que é rodeada de jardins super compridos e bem cuidados. Acabamos não conhecendo a casa porque faltou tempo e queríamos nos focar no jardim. Na época que estivemos lá, as flores já tinham sido podadas, mas na primavera ali deve ficar sensacional!

Além destes três principais, ali também tem outros três espaços que você pode conhecer. O complexo de Alhambra vai tomar pelo menos três a quatro horas do seu dia – nos tomou 5 horas e saímos achando que fizemos tudo meio apressados, mas somos meio exagerados –, mas vai valer cada minutinho. Eita lugar lindo! Pra vocês terem ideia, tiramos 1105 fotos só lá! (Eu disse que somos ~meio exagerados~.)

Já se prepare, porque você vai andar muito por todo o complexo, entender as histórias daquela época e ficar louco com a arquitetura muçulmana, com painéis inacreditáveis e cheios de detalhes espalhados por todas as partes internas da Alhambra

pra você chegar preparado

Já falamos em outros posts sobre a siesta, mas é sempre importante reforçar: as cidades espanholas, especialmente no sul do país, levam a siesta muito a sério. Depois do horário de almoço tudo começa a fechar: restaurantes, lojas, bares e mercados desligam tudo e quem trabalha ali vai descansar. É a hora da siesta. Não entre em pânico: eles reabrem mais tarde – normalmente lá pelas 16h ou 17h.

Nos restaurantes, vá preparado para fazer uma dancinha para chamar a atenção do garçom – ou quase! hahaha uma mão levantada e um aviso de que vocês chegaram ali já ajuda bastante a diminuir essa espera. Mas relaxe, porque ali as pessoas são bem mais tranquilas e nada parece ter pressa.

Sobre a época para visitar, nós pegamos 45 graus em um dos dias que passamos por lá, então tente não visitar a cidade entre Julho e Agosto. Em algumas horas do dia era simplesmente impossível ficar na rua – sem exageros. A gente procurava sombra o tempo todo.

 

Granada é uma cidade pequena e muito tradicional, mas cheia de vida, pessoas jovens, coisas para conhecer e lugares diferentes para explorar. Quando conhecemos ali, antes de irmos para Córdoba, ficamos quase arrependidos de não termos morado por lá – mas acho que aquelas subidas e descidas enormes teriam matado a gente durante o alto do verão.

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